Método Felipe


Faz uma semana hoje: se, como diz a canção, parecia que todo o Brasil se deu as mãos, na decisão da Copa do Mundo em jogo contra a Alemanha, a saborosa conquista do penta gerou um clima de euforia, como se resgatasse uma auto-estima perdida, que projeta aquilo que aconteceu dentro das linhas de um gramado para comparações com a nossa realidade.
Primeiro, o técnico da seleção, nome conhecido no aumentativo. Sabia o que queria e, contrariando os mais variados tipos de palpites, montou o esquema que seria vencedor. Aqui, uma primeira analogia. Procuramos, conscientemente ou não, um Felipão para nos tirar do atoleiro econômico, social e moral. É verdade que aqueles que se consideram mais lúcidos vivem a proclamar que não existe o chamado ''salvador da pátria'', mas eles mesmos, às vezes um tanto quanto ensandecidos, pregam justamente o contrário do que dizem: defendem com unhas e dentes a existência de um líder que, guindado ao poder, seja capaz de nos conduzir às planícies encantadoras. Vivemos exatamente esse momento. Só que na busca desse líder estão se fazendo as mais estranhas, e por que não dizer, espúrias alianças.
Os fins justificam os meios, dizem sem muita consistência. Já ouvimos alguém dizer isso antes, em algum lugar. Nossos Felipões imitadores, ao contrário do modelo original, já cedem às imposições e composições, misturando agua com azeite, desculpando-se com o eufemismo que garante: aliar-se é uma coisa, governar é outra. Coerência? Fica para uma próxima vez, eleitor(a).
Ainda com relação ao Felipão original: confundiu-se não gostar dele com torcer contra a seleção. Equivocou-se em proceder do mesmo modo pelo fato de ser difícil aplaudir o presidente da entidade que manda e desmanda no futebol brasileiro. E ainda existe quem fale em ''risco País''... Depois da vitória garantida, tanta e tanta gente mudou de opinião da noite para o dia! Cronistas esportivos, então, às dezenas, esqueceram de repente o que eles mesmos haviam dito (alguns tiveram a dignidade de fazer o mea culpa, mas a maioria não) e os aproveitadores e oportunistas de plantão sairam das sombras, demagogos, em busca mais dos dividendos da luz dos holofotes do que tributar um justo reconhecimento. O fato é que nosso Felipe transformou-se de burro em gênio estrategista, mudando-se por completo, e abruptamente, o seu código genético. Como se fosse possível ser e não ser ao mesmo tempo.
Mas vamos pensar juntos sobre o time vencedor. Ele precisa, evidentemente, ter um bom goleiro. Senão a vaca vai para o brejo quando menos se espera. Os zagueiros devem ser precisos para conter os avanços inimigos - esses abutres vorazes que não hesitam em colocar seus interesses pessoais acima de tudo. Fazem de conta que não sabem o que significa ''coisa pública''. ''Povo'', então, é uma palavra que pronunciam de boca cheia. Mas na hora h...
O meio de campo tem que funcionar como sustentáculo da equipe. Saber armar as jogadas, distribuir a bola com precisão de estrategista, garantir a defesa e sustentar o ataque. Podemos ver aqui a sociedade civil e suas instituições, cada uma fazendo a sua parte da melhor maneira que sabe e pode. Quanto ao ataque, é preciso definir quem fica postado exatamente onde, para ser municiado no momento preciso, na exatidão da circunstância que o ritmo de jogo exige, para rumar em direção ao gol.
Como se vê e como se viu, ninguém vence sozinho. É preciso ter método, disciplina, determinação, garra, vontade, resistir à dor e suar a camisa. O técnico sabendo muito bem com quem pode contar e identificando quem só sabe enganar. Diagnosticar potenciais e limites.
Ora, mutatis mutandis, aí está o Brasil cheio de problemas econômicos, sociais, uma violência galopante e a impunidade dominante. Para reverter esse quadro, a euforia do povo nas ruas, saboreando feliz uma coisa boa, permite de maneira inevitável a analogia. Vitórias e conquistas poderiam ser celebradas em praça pública, que afinal, segundo o poeta, é do povo como o céu é do condor. Uma coisa é comemorar, juntos. Outra é viver escondido, cercado de seguranças, preferindo atos praticados às ocultas do que a transparência.
Há sangue de Felipes e craques pentacampeões correndo em nossas veias. É lamentável, como diria Shakespeare em ''Ricardo 3º'', que na nossa época loucos dirijam cegos. Vamos reverter isso, também como já se disse, para o bem de todos e felicidade geral da Nação. A seleção é a nossa cara? Depende de nós dizer sim ou não, possível ou impossível.

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