Percival de Souza
INIMIGA PÚBLICA Nº 1
Senhor Presidente: fiquei comovido com a sua declaração pública, feita em Brasília no meio da semana, dando conta de que a violência é, segundo suas palavras, o inimigo público nº 1 do País. Comovido e sensibilizado porque tenho batido nesta tecla aqui, há anos, e já estava me considerando uma espécie de João Batista clamando nesse deserto de idéias e ideais, de clamores e impunidade, todos geradores de grande espanto.
Acontece, senhor Presidente, que aquilo que se enfatizou está preocupando corações e vidas há bastante tempo. Tudo bem, quem passa a maior parte do tempo no Planalto nem sempre consegue ver o que está acontecendo na realidade da planície. É verdade, também, que o senhor ao longo de dois mandatos teve mais de meia dúzia de ministros da Justiça e o atual, Miguel Reale Junior, advertiu na semana anterior que o crime organizado está assumindo feições de uma organização estatal. Porque tem força para decidir quem corromper e executar quem deve morrer. O Poder de Estado perto dele parece cada vez mais frágil. Nossa inimiga amedronta.
Assim é, senhor Presidente, que embora comoventes e sensibilizantes, suas palavras chegam à Nação com grande atraso. Desconfio até que se não estivéssemos nos aproximando das eleições, elas nem seriam pronunciadas. Mas o impressionante mesmo é que as palavras sobre o que de nefasto anda acontecendo em nosso País vieram com um tom de diagnóstico profunda e recentemente elaborado. Mas não é: tudo velho, tudo incorporado ao nosso cotidiano, tudo integrando um mosaico onde se contempla as cenas da realidade com visão míope. A sensação de impunidade abre espaço para o crime e corrói a sociedade e a democracia. Correto. Mas por que perceber isso somente agora, num final de feira, num fim de linha, nos estertores de um mandato? Não seria tarde demais, pelo menos para o senhor?
Impressionante, senhor Presidente, com nossas autoridades com obrigação de olhar as coisas como realmente são preferem, como o senhor mesmo disse, deixar de lado e fingir que não vê. O senhor disse ainda mais: não é possível aceitar a lassidão no cumprimento da lei. É isso mesmo. Mas... quem está deixando de lado? Quem está fingindo que não vê? Quem está incentivando o crime com a impunidade?
Pois é, senhor Presidente: além de estar cada vez mais difícil ganhar o pão de cada dia, temos ainda que enfrentar e, ao que parece, nos acostumar com as cenas de violência. Como se viver à margem da lei, matar, roubar, furtar, apropriar-se da coisa alheia e da coisa pública, além de agredir, ferir, traficar e usar drogas como aperitivo, fizesse parte do jogo.
Então, senhor Presidente, se agora é o senhor que está dizendo tudo aquilo que a gente já diz há bastante tempo, não se pode evidente atribuir a constatação de quem é inimigo público em primeira escala a meras intrigas oposicionistas. É verdade que sorte para o senhor, presidente! pouca gente está em condições de arremessar a primeira pedra. Pois é, o senhor falou e disse. E agora, José? Desculpe. E agora, Fernando?





