Há algo de podre no Estado do Espírito Santo. ‘‘Algo podre’’ lembra Shakespeare. Hamlet ficava paralisado diante da dúvida, ao contrário de ser estimulado pela ação. Os podres capixabas estão paralisando, de puro medo. Uma mistura absurda de crimes, impunidade e corrupção transformou o Estado num dos símbolos maiores de expressão do crime organizado em nosso País. O temor fechou as bocas, mas por trás de tanto silêncio existe um discurso transparente: não existe solução local para tantos podres. A solução, se houver, tem que vir de fora.
Assim pensando, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil pediu ao ministro da Justiça intervenção federal no Estado. No próximo dia 5 de junho, a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana reúne-se na cidade de Vitória, no auditório da Justiça Federal. Formalmente, a oficialização do pedido pode ser encaminhada ao procurador-geral da República ou ao Congresso.
Constatei tal situação kafkiana in loco. É horrível. Diz o presidente da secção local da OAB, Agesandro da Costa Pereira, que ‘‘os direitos fundamentais da pessoa humana, nesta quadra, são afrontados sem consequências, as vítimas ficam impunes ante as desalentadoras capitulações das autoridades locais e os lamentáveis colapsos da Justiça’’. No dia 15 do mês passado, o advogado Joaquim Marcelo Denadai foi fuzilado com quatro tiros. Este advogado estava apurando, para variar, mais podres dos corruptos e poderosos locais. Aliás, isso implicaria desdobramentos naquele escabroso caso de corrupção em torno da Prefeitura de São Gonçalo, RJ, denunciado com maestria pelo ‘‘Fantástico’’ da TV Globo. Resultado: Denadai pagou com a vida. Como se vê, podres com ramificações interestaduais. Na representação recebida pelo ministro da Justiça, consta que no Espírito Santo existe uma associação criminosa com sede própria (!), integrada inclusive por juízes, promotores, policiais, fiscais do Estado, vereadores, deputados e um magnata do jogo do bicho (!), que montou um ‘‘sistema de acobertamento’’ (!). Resultado: ‘‘no Poder Judiciário, há a protelação de depoimentos relevantes quando se trata de pessoas importantes (!), ‘‘no Ministério Público não são acompanhados os inquéritos’’ (!), na Polícia Civil ‘‘as provas colhidas pelo perito desaparecem ou são manipuladas’’ (!). Sem contar que, segundo a representação em prol de intervenção, constitucionalmente embasada, ‘‘há confissões forjadas para desviar os verdadeiros culpados. Há álibis forjados’’.
Chega. Isso tudo provoca ânsias de vômito. É repulsivo. É repugnante. As denúncias foram endossadas e ampliadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico. Tudo terminou numa gigantesca pizza de sabores variados. O presidente local da OAB recebeu uma carta ameaçadora. Ela dizia: ‘‘Quanto é que você acha que vale os negócios que denuncia? O mundo é assim. Na sua idade a sabedoria deveria falar mais alto. Você não está sendo sábio. Pense nisto’’.
Sim: pensemos nisso. Nietzche dizia que mesmo tendo coragem a gente só raramente mostra aquilo que realmente conhece. Coragem, pois.

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