Lembra-se do bandido conhecido como Andinho, sequestrador e matador, envolvido na morte do prefeito de Campinas, o Toninho do PT? Pois bem: um delegado de Polícia, do Departamento de Narcóticos, Fábio Dalmás, posou durante semanas como o artífice da captura do facínora. Nesta semana, porém, a casa caiu: o mesmo delegado foi surpreendido em conversas das mais comprometedoras com um doleiro e um empresário, combinando remuneração para providenciar escoltas da polícia em transporte de cargas roubadas e contrabando. Em certo momento, determina que o extorquido pague as doses de corrupção aos poucos. ‘‘Para ir amortizando’’, disse. Ainda ameaçou colocar um quilo de cocaína nas mãos do filho da vítima e forjar um flagrante de tráfico para não haver inadimplência. É arrepiante. Um novo escândalo, envolvendo mais três subalternos de Dalmás e, de quebra, um voraz agente federal.
Diz um provérbio chinês que a verdade é o mais eficiente instrumento de mudança social e que por isso os homens a temem. Ficamos a pensar: como pode parecer que alguém seja considerado um dos melhores policiais do País e em seguida aparecer para a sociedade como uma abjeta figura da instituição policial? Claro que é preciso submeter tais gravações à perícia, estabelecer que a voz é mesmo do policial. Aqui, permitam-me, vamos poupar tempo: conheço o policial e a voz é dele mesmo. Não tem jeito de remendar o estrago. Definitivamente, a casa caiu.
O impressionante dessa história é o conluio polícia-bandido. Se os corruptos se empenhassem a metade disso tudo para proteger os cidadãos, sem dúvida nossa situação estaria bem melhor. Paralelamente a isto, realizou-se nos últimos dias, em São Paulo, o 3º Encontro do Fórum Nacional de Segurança Pública, reunindo várias entidades da Polícia Civil. Numa carta aberta, os participantes insuspeitos disseram que ‘‘os sistemas policiais em vigor remetem à era Vargas estão superados. A realmente prevalecer o interesse público de racionalidade e eficácia para o setor, serão insustentáveis as posições que engessam a essência do que temos hoje: organismos obsoletos e, portanto, pouco eficazes’’.
Voltemos ao provérbio chinês que fala sobre a verdade. Se não a adotamos como regra, a mentira prevalecerá. Os Pinóquios se multiplicarão.
Não é mais possível aceitarmos com inacreditável tolerância as relações de corrupção que minam instituições. Não existe crime organizado sem que bandidos e policiais se misturem. Nunca gosto de falar ‘‘polícia’’ nesses assuntos e sim ‘‘policiais’’. Não é bom generalizar. No caso, entretanto, para que ‘‘policiais’’ maus e corruptos sejam expurgados, imprescindível se torna que a ‘‘polícia’’ - ela mesma, a instituição - esteja atenta permanentemente para banir de seus quadros os indesejáveis. Recusar-se a conviver com aqueles que trocam a ética por dinheiro. Só assim será possível reerguer a casa que caiu. É engenharia. É sobrevivência.

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