O leitor já deve ter ouvido a expressão. Rota é uma tropa da Polícia Militar de São Paulo. A sigla de Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, nome do fundador da corporação em 1831. Ganhou fama como grupo policial aguerrido, implacável, combatente tenaz do crime, abatendo sumariamente aqueles que ousavam desafiar qualquer tipo de regra da sociedade. Depois, esse estilo passou a ser criticado quando inocentes passaram a ser confundidos com culpados e suspeitos com bandidos. De qualquer forma, quando se fala em Rota, isso quer dizer ir para cima do crime com determinação. Veja o recente caso de interceptação do comboio formado por homens do PCC, a organização criminosa Primeiro Comando da Capital, na rodovia de acesso à cidade de Sorocaba: doze bandidos foram mortos eliminados de uma só vez. Pela Rota.
Pelo resumo, o leitor será capaz de entender porque razão os políticos, em época de eleição, prometem sempre ‘‘colocar a Rota na rua’’. Curioso que nesse exato momento a Rota polariza nas campanhas. Paulo Maluf (PPB) prometeu isso. José Genoíno (PT) também. Há dias o governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, substituiu o comandante-geral da PM por um coronel que apresenta em seu currículo, basicamente, o fato de ter sido o comandante da Rota. Em outras palavras: os adversários prometem a Rota na rua? ‘‘Então, vou fortalecê-la, e jᒒ.
Não deixa de ser interessante para o leitor, também eleitor, as discrepâncias em torno do assunto. O tucanato paulista, em exercício de mandato, abominou a Rota. Preferiu confiná-la. O falecido governador Franco Montoro, sob as orientações de seu secretário da Justiça José Carlos Dias, anunciou o fim do DOPS, a política política, e a Rota. O DOPS acabou. A Rota, não. Tema sempre presente nas eleições, a segurança pública entra obrigatoriamente no leque das promessas de campanha.
No caso particular dos paulistas, a Rota acaba fazendo parte do cardápio à base do ‘‘vote em mim, as coisas vão melhorar’’. Ir para cima dos bandidos por iniciativa dos tucanos, agora, quer dizer que não se fazia isso há sete anos e quatro meses. No fim de feira político, promete-se o que não se fez ao longo de dois mandatos. O fato traduz um atestado de equívocos praticados. A Rota é da PM. O primeiro secretário da Segurança do falecido governador Mário Covas, propôs pura e simplesmente a extinção da corporação. E aí, como ficamos leitor, o que pensar disso tudo eleitor?
O escritor Jorge Luís Borges nos dá uma pista. Ao criar uma ficção na qual o tempo era negado, o presente ficava indefinido, o futuro se apresentava como algo sem realidade, a não ser a esperança (que é do tempo presente), como se passado e futuro formassem uma simbiose. Quem entende o presente antecipa o futuro. Onde estão, nos escalões das promessas da Rota, as perspectivas de humanismo em torno de saúde, educação e emprego, aqueles diagnósticos todos que já sabemos de cor e salteado para interpretar os sobressaltos do presente? Voltemos a Borges.

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