Bandido alado



Assim na terra como no céu: os bandidos que aterrorizam por terra, nesses tempos de insegurança pública, agora também chegaram pelo ar num presídio que dizem de ser de ‘‘segurança máxima’’. Cenas de filme na vida real de São Paulo: dois bandidos alugaram um helicóptero, a pretexto de fazer um vôo panorâmico. Ameaçaram o piloto com armas de fogo para obrigá-lo a descer num dos pátios do Presídio de Guarulhos, onde dois presos de alta periculosidade já estavam esperando. Foi o resgate mais espetacular da história do sistema penitenciário paulista, de onde escaparam 5.409 prisioneiros no ano passado. Um verdadeiro exército gargalhando do derrotado e impotente Estado.
A população olha para tudo isso com desconsolo. Dá a impressão que na cadeia só fica quem quer. Também só vai para ela quem está desprovido ou desprotegido. De forma legal ou ilegal, moral ou imoral, o vil metal é o poderoso ‘‘abra-te sézamo’’ ao qual as grades não resistem. Costuma-se falar, para explicar o inexplicável, em ‘‘brechas na lei’’ e ‘‘bons advogados’’, como tais circunstâncias pudessem ser sinônimos de impunidade. Heresias jurídicas à parte, não são.
O resgate alado lembra um outro de 16 anos atrás, quando o traficante ‘‘Escadinha’’, fundador da organização criminosa Comando Vermelho, escapou do presídio da Ilha Grande a bordo de um helicóptero. Antes dele, aconteceu a mesma coisa na Casa de Detenção de Paris. Mas o circo brasileiro chegou a um grau de desplante que as coisas se tornam sinistras para a sociedade. Por todos os lados, cantos e Estados, escutamos a ladainha infernal de sempre. Continuamos sendo as vítimas e cobaias da incompetência, da corrupção e do amadorismo em matéria técnica e profissional. Está mais do que na hora de fazer vigorosa faxina nisso tudo.
Antes de escrever a coluna de hoje, conversei com o presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, João Benedicto de Azevedo Marques. Esse Conselho é vinculado ao Ministério da Justiça, de onde – em tese – deveriam sair as diretrizes das políticas que trabalham com insegurança ou segurança, tranquilidade ou medo. Confesso que empreguei um tom irritado para a entrevista. Marques tentou me acalmar. Pelo menos, consegui arrancar uma avaliação realista: ‘‘O Estado de Direito precisa dar uma resposta para o que está acontecendo’’. João Benedicto revelou que em março – aqui, tudo é no ritmo da marcha lenta e pós-carnaval – reunirá em Brasília os presidentes dos Tribunais de Justiça, os procuradores gerais (Ministério Público) e presidentes seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil. Vão pôr no papel os tantos erros da legislação para maiores e menores e tentar corrigi-los. Talvez seja um bom começo, embora tímido. Bandidos terrestres e alados estão folgados demais. E todos nós cansados de vê-los ditando tantas regras. O filme fica cada vez mais velho. E sem nenhum final feliz.

mockup