Bons anos

Passagem de ano é sempre assim: votos de felicidades para cá, de saúde para lá e um dinheiro no bolso que não faz mal para ninguém. É o que se espera e se deseja, com os ingredientes de paz e amor nas relações pessoais, sentimentais, profissionais e sociais.
O ano de 2002 não será diferente. Repete-se o ritual da passagem, quando se imagina ser possível desfrutar no próximo período de 12 meses de uma situação melhor.
Sem querer ser profeta que não era adivinho e, sim, analista dos tempos acredito que seja possível definir os primeiros passos da coreografia que está sendo ensaiada. O ano-novo será extremamente político, no sentido de haver eleições para os principais cargos diretivos da Nação. Então, viveremos os meses que irão compor um enorme calendário eleitoral. Candidatos e partidos, de repente, vão se lembrar mais profundamente de nós. Farão promessas, sempre incríveis, que garantirão mudanças radicais, sempre para melhor, desde que eles estejam no poder.
Soluções para a economia, para a desigualdade social, para a horrorosa distribuição de renda, para a educação, para a saúde, para a moradia, o desemprego e a insegurança pública. Sim, conforme as promessas, seremos todos abruptamente felizes, como se a felicidade pudesse ser determinada por decreto. Promessas e plataformas vão se misturar de novo, como se tudo isso fosse um denominador comum entre partidos políticos e candidatos, todos desejando quase as mesmas coisas para o bem de todos.
Esse será o primeiro passo: a mesmice do palavreado fútil. Muitos não cederão à tentação da demagogia, abraçarão criancinhas e erguerão o tom de voz quando pronunciarem a palavra tão mágica: povo. Precisa-se do povo para chegar ao poder. Esquece-se rapidamente dele quando se chega lá. Tudo tem exceção, é claro.
O segundo será perceber tomara que isso aconteça que a cultura humanizada não está atrelada a programas de entretenimento na televisão e nem na Internet, como equivocadamente muitos imaginam. A cultura desejável tem que vir da escola, neste País de 1.500 editores e 800 livrarias. É essa cultura que abre os olhos, ensina a ver além do nariz e nos obriga a entender, como diria São Tomás de Aquino, que para a prática da virtude é preciso desfrutar de um mínimo de bem-estar.
O terceiro que chama a atenção deste profeta tupiniquim é que para reverter esse quadro não podemos mais nos contentar apenas com um ano. Precisamos de um bom futuro, caráter, dignidade e cidadania alicerçados, e não vigorando por 365 dias somente. E sendo assim, precisamos concentrar nossa atenção não apenas em quem deseja novos tempos mas sim em quem se mostre capaz de assegurá-los. Pensar e fazer pensar. Produzir idéias e transformá-las em ação. Priorizar escalas de valores (transcendentais, inclusive). Injetar humanismo no cérebro e nas veias. Aí, então... felizes anos-novos!

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