GRUTA DOS DEFEITOS

O Natal está chegando. Isaías, o profeta lírico, suplica para que os céus derramem orvalho, as nuvens chovam justiça e a terra se abra e dela brote o Salvador. Vieira, o grande pregador, vê o nascimento de Jesus tendo como objetivo de redenção os simples, representados pelos humildes pastores do campo, e os letrados, na figura dos magos que foram ofertar ouro, incenso e mirra. Os visitantes foram ver o Deus-menino. Brincaram com Deus! E o bebezinho, sem proferir única palavra, pregou o próprio nascimento - isto é, assumindo a condição humana, tornou-se fraco mesmo sendo forte, sentiu sede mesmo sendo fonte da água da vida e chorou, embora capaz de enxugar toda lágrima. Teologia pura, para você pensar no real significado do Natal.

Estamos com o retrato de nosso País prontinho, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Metade dos 44,7 milhões de chefes de família ganha R$ 350 por mês. Ainda existem 17,6 milhões de analfabetos. 7,5 milhões de brasileiros não sabem o que é ter banheiro em casa. Temos 11,2 milhões de mulheres chefes de família. E por aí vamos.


A nossa gruta dos defeitos está escancaradamente exposta. No mês passado, esteve no Brasil um professor de economia no Massachusetts Institute of Technology. Lester Thurow escreveu treze livros. Um deles tem o título ''O Futuro do Capitalismo''. Ele disse que precisamos saber enfrentar de frente as nossas fraquezas. Que resumiu em cinco: mão-de-obra com baixa competividade, um sistema jurídico arcaico, juros elevados, falta de infra-estrutura e baixo nível educacional. Parece óbvio. Mas nossos governantes insistem em não ver.
À semelhança do que anda acontecendo no período de Natal, parece que perdemos a capacidade de ver, ler, estudar e interpretar. A gruta dos defeitos, de Cecília Meireles, encontra-se em Belém, isto é, a Casa do Pão. Claro que este pão nutre e é saboroso. Na nossa gruta pode nascer, se deixarmos espaço para que Ele nasça, a esperança materializada na humanidade de Cristo, Emanuel (Deus-Conosco). Somente sendo divino para se tornar tão humano! Ali, na manjedoura, começará seu ministério ensinando, sem palavras, aquilo que ensinará, com palavras, somente 30 anos depois. Como o maior código ético que jamais se conheceu, o sermão das bem-aventuranças. Lições de ética, de cidadania e de humanidade para crentes e ateus, agnósticos e materialistas, cientistas e religiosos. A salvação é universal. Para todos.

Convertidas em ações, as palavras de Jesus superam qualquer programa ousado de todos os partidos políticos, sem exceção. Vimos, dias atrás, a derrocada da política econômica na Argentina, onde o ministro Cavallo ruiu, como ídolo de barro, acompanhado por De la Rúa, o presidente. Um reforço a mais para que prestemos mais atenção no retrato do Brasil feito pelo IBGE: é praticamente impossível segurar o estômago que ronca.

''Não tenham medo'', ouviram de um anjo os pastores no campo. E eles reagiram prontamente, diante do recebimento da boa notícia, decidindo ir até Belém ver o que havia acontecido, conforme registra o Evangelho de Lucas. Os magos foram orientados por uma estrela, que após indicar o local desapareceu ou se desfez - não se fala mais dela nas Escrituras.

O retrato do Brasil é um mapa de defeitos. Precisamos, como os pastores, correr atrás dessa notícia para corrigir tanta distorção. Como a estrela, precisamos desfazer nossa arrogância e pouco caso diante dos desvalidos, da brutal desigualdade social, sob pena de ficarmos reféns de nós mesmos. Jesus, a fortaleza-fraca enquanto criança, precisou refugiar-se no Egito.

Todo esse tesouro em forma de narrativa não pode ser visto apenas como festa de amigo secreto, taças de champanha e grandes ceias. O Natal jamais foi isso. Na melhor nas hipóteses: nunca foi apenas isso.

Amor e paz, lições do Deus-menino, é do que precisamos com a maior das urgências. E sendo assim, desejamos a você um Natal autenticamente feliz. Lembre-se do aniversariante. O resto virá por acréscimo.

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