Percival de Souza
ORQUESTRA PODRE
Orquestra, sim, porque ficou maior do que a banda. Estamos falando de coisas nocivas, amorais, abjetas, indecentes. No começo, era apenas banda podre. Evoluiu consideravelmente. Virou orquestra.
As considerações acima são pertinentes quando se examina o caso dos policiais que deveriam combater o tráfico e se tornaram traficantes. Agentes do Departamento de Narcóticos (Denarc) de São Paulo foram filmados pelo Ministério Público agindo na chamada ''cracolândia'', a capital do crack, as pedras causadoras de dependência e que apressam a morte, prendendo e soltando, conversando com traficantes e pegando dinheiro. Aliás, as cenas deprimentes - exibidas na televisão - configuravam uma situação de flagrância, isto é, os policiais poderiam ter sido presos em flagrante. Houve um erro técnico nesse detalhe. Não se trata de um detalhe jurídico e sim prender quem deva ser preso sem maiores protelações. É o que diz a lei. Geraldo Alckmin, o governador dos paulistas, negou que esta fosse uma banda podre, segundo ele expressão exclusiva do Rio de Janeiro. Farpa política, talvez. Mas não é o que importa diante da orquestra em aguda fase de putrefação.
A tal ''cracolândia'' é um lugar deprimente. Ocupa um enorme quadrilátero, conhecido como ''boca-do-lixo'', onde circula e se oculta considerável parte da escória social. Autênticos pardieiros servem de abrigo para traficantes e usuários que para lá vão comprar a droga de cada dia. Sendo infecto, é problema de saúde. Sendo palco de mal-aventurados do mais baixo extrato social, deveria merecer a atenção que nunca merece de órgãos interdisciplinares, que ali deveriam agir nas esferas de competência. Como ninguém aparece, o campo fica aberto - e assim surgiu essa história dos policiais corruptos do Denarc. Em vez de trabalhar, achacar. No lugar de reprimir o tráfico, traficar. Mas a ''cracolândia'', mesmo sem querer, tornou-se um palco iluminado, escancarando a degradação da sociedade, a inversão policial de valores e também a ilusão de que o único problema, ali, tenha sido a incursão de policiais corruptos. Tudo bem, os corruptos foram expurgados.
Mas na ''cracolândia'' nada se alterou e ninguém tomou providência alguma. Ou seja: os traficantes continuaram traficando, os usuários permaneceram adquirindo, os hotéis estão funcionando e mulheres, adolescentes e crianças misturadas com cafetões ali permanecem, sob o mais absoluto cinismo da sociedade. Como se traficar fosse profissão, consumir drogas algo normalíssimo e a degradação humana um tipo de coisa com a qual temos que nos acostumar. Mas o que significa tudo isso, enxergando um pouco além deste torpe caso de corrupção policial?
Significa que vários setores da sociedade consideram lícito usar de certos meios para alcançar determinados fins. É aquela velha história do ''ter'' no lugar do ''ser'', tão repetida e nem sempre suficientemente compreendida. Assim, é possível ''ter'' transformado a droga em economia de mercado, prostituição em sobrevivência, a exploração dela em administração. Existe miopia em nível suficiente para ver a prostituta como ''trabalhadora do sexo'', eufemismo que pretende transformar exploração do corpo para sobreviver em atividade profissional. Isso tudo que assistimos na ''cracolândia'' dá sentido ao ''ter'' como uma forma de ficar alheio ao que de fato acontece ao derredor. Sim, porque pensar apenas em ''ter'', não importando a forma, pode ser um conceito que vai nos engolindo, insensibilizando, deformando. E sendo esta a prioridade, surge o risco de se viver numa área restrita aos que ficam satisfeitos apenas e tão somente com o ''ter''. Aos poucos, e às vezes definitivamente, perde-se o ''ser''. É uma deficiência que já podemos chamar de ontológica.
Os ''tiras'' achacadores do Denarc só pensavam na grana, no vil metal, no dinheiro. O resto, não lhes importou. Não lhes interessou a procedência das cédulas e moedas; interessou apenas que estivessem nos seus bolsos. Não sabem o que é moral, nem bons costumes, adeptos que são da anomia, a ausência de regras ou normas. Quem só pensa em ''ter'' prefere ignorar os outros. Quem valoriza o ''ser'' sabe que o ''ter'' é importante apenas para ajudá-lo, mas jamais a razão da existência. Cuidado, orquestra podre tem e terá desdobramentos. Precisamos desafinar e quebrar todos os seus instrumentos e assim entrar no nosso próprio ''ser''.





