Percival de Souza
PERDÃO, PETER
A vida do homem que fez a mais rápida volta ao mundo num veleiro e estava na Amazônia para documentário sobre ecossistemas aquáticos e uma campanha de preservação do nosso santuário ecológico, acabou com dois tiros nas costas. Peter Blake, uma espécie de Pelé na Nova Zelândia, teve fim trágico na etapa final de sua ecoexpedição. O fato aconteceu no Amapá. O velejador e sua tripulação foram atacados por ratos d'água, piratas modernos como se fala na região sobre os assaltantes que agem nos rios, usando barcos como transporte para as emboscadas.
Peter escrevia um diário de bordo. Entre suas últimas palavras, ficaram as referências sobre ''rolos de fumaça - grossa - saindo de algumas áreas da floresta, formando muralhas. O cheiro de floresta queimada enche o ar''. Depois, perguntou para si mesmo: ''Por que estamos aqui?'' E respondeu: ''Poderíamos ter vindo de avião, ficado umas semanas e ido embora. Mas não nos teria sido mostrada a essência do Amazonas.'' Premonição? Constatação? Denúncia? Essas palavras não deveriam ficar registradas apenas no diário de bordo. Precisariam ser fincadas em nossas almas.
Perdão, Peter. Mostramos para você significativa parte da essência da região. E você mostrou para nós o absurdo de considerar normais fatos repugnantes. Acho que você foi aí para isso - um sacrifício a mais para nos despertar da inércia conformista.
Piratas de nosso tempo, ratos urbanos, miséria, desigualdades, crimes, violência. Os diagnósticos estão todos prontos. Os remédios sociais é que nunca chegam.
O caso Peter Blake nos remete para outra face da anomia em que estamos atolados: precisar de algum tipo de impacto para tomar providências. Para não sermos levados de roldão pela enxurrada das explicações nada convincentes. Parece que gostamos de enganar a nós mesmos, como se o Brasil tivesse mesmo bobos para tudo. O caso Peter é horripilante, mas faz parte do cenário cotidiano naqueles pontos do País. Rato d'água por lá quer dizer ladrão, assaltante, latrocida, ''nós queremos money''. Rato prolifera. Pode virar praga, grave ameaça à saúde pública. Ou se controla o surto ou se perece. Ficar de braços cruzados é que não dá: problemas de imagem, problemas morais.
Os simplistas de plantão vão chegar com suas palavras ocas, versão farisaica dos bíblicos sepulcros caiados: formosos por fora, podres por dentro.
Necessidades ou mesmo a fome não justificam tiros nas costas. Atirar por trás é atitude de covarde. Quem precisa não tem porque matar. Sangue não é problema de estômago, é questão ética e moral. Não se pode mais banalizar tanta estupidez e violência em nome de uma sociologia de botequim. A propósito, existe em nosso sexagenário Código Penal a previsão legal do furto famélico - isto é, quem furta porque está com fome não recebe nenhuma sanção. Aliás, a lógica exige admitir: quem não tem dinheiro para comprar o pão de cada dia também não possui verba para comprar armas e apertar gatilhos.
O rol de sacrifícios para despertar a consciência adormecida é impressionante. Do holocausto de Chico Mendes, na mesma Amazônia, passando pelos moleques que acham divertido atear fogo em quem está dormindo na rua (caso do índio pataxó, em Brasília), chegando à irresponsabilidade do Conselho Penitenciário de Minas Gerais que pretendia dar um prêmio final para Guilherme Pádua, o assassino de Daniella Perez, constatamos que sem impacto não se reage.
Na rotina do dia-a-dia, os matadores de Chico estariam gargalhando; os filhinhos de papai do Planalto continuariam debochando e Guilherme, o matador, estaria liberado para confundir Natal com taça de champanhe. É assim no campo, é assim nas cidades, é assim em toda parte. A violência absurda e injustificável é sempre ''explicada'' num sentido em que deve ser colocada num altar, para ser admirada, produzindo assim a condição de vítimas em dose dupla: vítimas da estupidez humana, vítimas da insensatez que raciocina com os pés e não com a cabeça. Engana-se a quem, afinal, com esse tipo de atitude?
Resumindo: a sociedade não tolera, não suporta, não aguenta mais. Ninguém gosta de ladrão, de quem aponta arma, de quem mata para roubar, de traficantes, da transformação do crime em modo de vida. Isso de alto para baixo, de Lalau a Beira-Mar, de cartolas do futebol a gatunos multidisciplinares e matadores implacáveis.
Se você conhece alguém que desminta o parágrafo acima, peça um autógrafo. E, por favor, me apresente. Eu não conheço ninguém.





