Percival de Souza
DOCE PERIGOSO
Angélica, 16 anos, entrou numa padaria para comprar doces em bairro da zona leste de São Paulo. Um tiro a atingiu em pleno peito. Matou-a quase instantaneamente. Como pode ter acontecido um absurdo desses? Houve quem dissesse que ela estava no lugar errado e na hora errada. Que tinha chegado seu dia, sua hora. Coisa do destino cheia de tiros a esmo.
Esse discurso é mais furado do que peneira. Nada tem de errado em qualquer horário ir a uma padaria para comprar doces. Que tinha chegado a hora, pré-determinada, é outra bobagem, que pode converter-se em heresia teológica ao se atribuir tal desgraça aos desígnios do Altíssimo. Portanto, aconteceu o que não poderia ter acontecido e não pode ser atribuído a vontades insondáveis de forças superiores. A menina morreu por consequência da perseguição alucinada de um grupo de policiais militares contra um motoqueiro (um jovem sem carteira de habilitação que deveria ter parado numa blitz policial). Atirar primeiro e perguntar depois sempre pode dar nisso. Os policiais eram de uma patrulha comandada por um sargento, e integrada por mais dois soldados, de uma ronda chamada ''Força Tática'' de um batalhão . Deveria ser presumível tratar-se de equipe de apoio, com preparado diferenciado. Não foi o que se demonstrou.
''Que país é este?'', clamava no enterro, no feriado da última quinta-feira, o pai da menina. Este foi mais um caso que leva setores da população a ter medo dos bandidos e também da Polícia. Os sintomas são mais do que evidentes: os patrulheiros envolvidos na ocorrência não estavam preparados para patrulhar. Mas aqueles que permitiram que mesmo assim eles estivessem nas ruas são igualmente culpados. Sim, quando se prepara mal, ou não se prepara, a responsabilidade é daqueles que conduzem seus comandados à própria morte, quando em confrontos desiguais, ou quando precipitadamente fazem jorrar o sangue dos inocentes. Nunca se pensa em escalão superior das responsabilidades que devem ser divididas em casos graves. Motoqueiro suspeito leva chumbo.
Comprar doces também virou atitude suspeita. Portanto, dificilmente Kafka imaginaria algo semelhante. Seu livro ''O Processo'' é um desfile de absurdos. Como este que liga um doce ao perigo.
Na última quinta-feira, comemorou-se o dia da proclamação da República, que já foi chamada de velha e nova, sucessivas vezes, e que se agita para alterações de comando no próximo ano. Começaram as promessas de campanha para o que se deverá fazer nos escalões federais e estaduais. Uma delas gira em torno da segurança pública e, curiosamente, está na boca de todos os partidos com uma coincidência de plataformas. Impressionante: todos admitem que é preciso mudar, fazer alguma coisa, dar uma satisfação, acalmar a população cada vez mais perplexa.
Planos circulam por aí. Fui procurado por representantes de três partidos fortes que estão elaborando projetos. Não gosto de fazer isso partidariamente porque a questão está acima de partidos ou ideologias. Mas querem expor suas idéias e o que farão caso consigam, como dizem, ''chegar lá''. O que penso é expresso semanalmente nesta coluna da Folha. Não acredito que seja preciso dizer mais além dessas análises espelhadas no nosso terrível cotidiano.
Mas quero, aqui e agora, observar o que pode acontecer quando aumentam os sintomas da síndrome do medo. Veja o que está acontecendo nos Estados Unidos, onde qualquer estrangeiro pode ser considerado ''suspeito'' de qualquer coisa e ser julgado por um tribunal militar com poderes para prender e matar. Bush admite ter deixado de lado ''princípios da lei e as normas sobre provas''. William Safire, do New York Times, comenta: ''Numa distorção orwelliana, Bush chama de ''julgamento pleno e justo'' esta abominação ao estilo soviético''. Que coincidência incrível entre lá e cá!
Qualquer um - eu, você - é rotulado de culpado até que eventualmente consiga provar inocência. Entre o poderoso Bush e os PMs da Força Tática de São Miguel Paulista não existe diferença. Muita coisa está errada. Queremos mudá-la (como?) ou deixar tudo como está? Pilatos não pode mais ter espaço em nossa combalida República. Não dá mais para lavar as mãos quando chegamos ao ponto em que comprar um doce é extremamente perigoso.





