GLÓRIA E DANIELLA

Quando vejo o rosto de Glória Perez, contemplo nele a dor estampada, visível, escancarada, perturbadora, terrível, da mãe que perdeu um filho de forma trágica. A morte é o fim. Mas a morte violenta é o fim antes do fim.

Parece que está escrito no semblante desta mulher que uma desgraça abateu-se subitamente sobre ela. A morte de Daniella marcou-lhe como uma chaga que insiste em não querer cicatrizar.

A face, mesmo oculta, fala. O rosto de Caim, após tirar a vida do irmão Abel, ficou transtornado. É o próprio Deus quem lhe pergunta (Gênesis, 4.5): Por que está abatido o teu semblante? A palidez do rosto pode denunciar um criminoso. O Senhor quer saber onde está Abel. Caim responde que não era guarda do irmão. Carlos Drummond de Andrade captou com arte e sensibilidade este momento do rosto denunciador e as mãos tintas de sangue: ''Minha mão está suja. Preciso cortá-la. Não adianta lavar. Minha mão está podre''. Está no poema ''A mão suja''. Guilherme de Pádua não mostra transtorno no rosto. E ainda diz: Daniella está bem melhor do que todos nós no lugar onde se encontra.

Daniella, também Perez, filha da novelista, encontrou a morte há quase nove anos atrás. Atraída para uma emboscada dolosamente preparada, perdeu a vida a golpes de tesoura. Guilherme de Pádua e Paula Thomaz foram os autores do crime. Guilherme, como Daniella ator da TV Globo, foi condenado a 19 anos de prisão. Há dois anos, ganhou liberdade condicional. Em seguida, a pena foi reduzida para 14 anos e alguns quebrados. Agora, o Conselho Penitenciário de Minas Gerais pretende dar mais um prêmio para Guilherme: indulto de Natal. Fim da pena e uma borracha passada na história. Glória Perez chama a isto de ''insulto de Natal''. A indignação varre o país, Glória à frente, do mesmo modo que ela conseguiu, com um abaixo assinado gigantesco, colocar o homicídio qualificado (aquele planejado, praticado com meio cruel, sem dar à vítima nenhuma chance de defesa) no rol dos crimes hediondos. Conseguiu. Como a lei não tem efeito retroativo, Guilherme não foi atingido.

O objetivo de pena, teórico pelo menos, é que o condenado pague pelo que fez, medite e se transforma. Entre na cadeia de um jeito e saia com outro perfil. Portanto, ao colocar alguém na prisão a sociedade pretende puni-lo e ao mesmo tempo regenerá-lo. Sendo assim, espera-se que Guilherme se transforme e se liberte de tantos sentimentos negativos, amorais, que o levaram a articular a morte da moça. Foi ao velório, oferecer solidariedade ao companheiro dela e, fingindo-se abatido, abraçou e confortou a mãe. Esse tipo de comportamento não tem previsão de ordem legal. Mas é cínico demais. Como ator, fez uma representação impecável.

Queremos recuperação mas não toleramos deboche. O Direito Penal deve ser perfeitamente compreensível para o mais simples homem das ruas. É uma lição do grande penalista Bettiol. No caso, ninguém do povo consegue entender a mecânica manipulada pelo Conselho Penitenciário, alheio ao clima e às emoções, porque das Minas Gerais e não do Rio de Janeiro, onde o fato aconteceu: pretende premiá-lo pela segunda vez, com o mesmo dispositivo (o indulto natalino), contrariando posicionamento do presidente do órgão, Otto Nunes Leite. Ressalte-se: este é um parecer. Quem decide de uma vez por todas é o juiz das Execuções Criminais.

A rigor, nove anos da pena e ponto final para um crime bárbaro. Que sentido, então, existe em manter um ladrão anos e anos no cárcere, como ''elemento perigoso'', enquanto aquele que tira vidas, o assassino, goza de benesses? É o que a sociedade, agora, precisa aprender a olhar. Nosso sistema está dizendo que roubo e furto devem ser punidos implacavelmente e homicídio deve ser visto com brandura. Como se matar fosse permitido e roubar de jeito nenhum. ''Se o juiz fosse justo, talvez o criminoso não fosse culpado'', escreve Dostoievski em Os Irmãos Karamazov. Guilherme, ousado, está ameaçando processar quem chamá-lo de ''assassino'' ou ''psicopata''. Os sinos não estão dobrando por Daniella. E se eles não retinem, que Guilherme ao menos se recolha ao silêncio e não apunhale mais, aumentando a dor de Glória Perez e seus parentes e amigos. Quem sabe, assim, perceba que Daniella é a vítima e ele o algoz implacável. E não o contrário, como se etende insinuar.

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