Percival de Souza
ZEBRA GAÚCHA
Diógenes, filósofo grego (século IV, antes de Cristo), nasceu em Sinope, chegou a morar em Atenas, e a raça humana não lhe merecia maior respeito. Tanto que costumava andar com uma lanterna na mão, mesmo durante o dia, dizendo que desse modo pretendia encontrar algum homem honesto. Consideravam-no cínico por defender a idéia de que tudo aquilo que não carrega em si a desonra, e portanto nada tem de indecente, pode e deve ser feito publicamente. Interessante, convenhamos.
Diógenes, o coordenador da campanha eleitoral do PT na disputa pelo governo do Rio Grande do Sul, tem uma única semelhança com o xará grego: o pai do filósofo era responsável pela cunhagem de moedas. Diógenes dos pampas arrecadava o dinheiro para a campanha e prometeu aos banqueiros do jogo do bicho que no novo governo tudo seria diferente: o invento do barão de Drumond, para salvar da falência o zoológico carioca no início do século passado, não seria visto como contravenção, em troca de algumas contribuições, como convém aos cínicos do presente. Tudo tramado às ocultas, porque indecente. O plano deu zebra. A vaca foi para o brejo e é preciso entregar o boi para as piranhas. Amanhã, o Diógenes sem lanterna terá que ser explicar numa CPI específica da Assembléia Legislativa.
Entre o Diógenes grego e o nosso, há o problema, moral e ético, de não fazer o que diz e prega. Não se pode ver essa questão com olhos míopes ou arma de campanha. Queremos ficar longe das ideologias necrosadas, conservadas em sarcófagos, e que com assustadora frequência são exumadas entre nós. Portanto, vamos nos ater única e exclusivamente aos fatos.
O poder político do Executivo manobra a polícia. Ela segue a linha do novo chefe, adaptando-se como camaleão a toda e qualquer circunstância. Ai de nós, cidadãos, portanto: ficamos ao sabor das conveniências políticas deste ou aquele grupo, como se houvesse várias polícias dentro de uma só, e não a preocupação profissional de nos proteger e cuidar para que os infratores das normas previstas em lei sejam identificados e punidos. De alguma maneira, somos cobaias de experimentos distanciados da realidade, como se alguém que descesse de pára-quedas numa chefia de Executivo pudesse, não mais que de repente, definir para todos nós o que é melhor em matéria de segurança pública. Por isso, aliás, estamos mergulhados no caos onde criminalidade, violência, despreparo, incompetência e falta de recursos se misturam para dar forma a um aparato cada vez mais distanciado da realidade perturbadora das ruas: crime na esquina, polícia bem mais longe.
Diógenes de Oliveira conversou com um delegado que seria o poderoso chefão da Polícia Civil gaúcha. Está gravado. A menos que as vozes tenham sido adulteradas, o que nem Diógenes admite, foi proposto um novo modus vivendi: bicheiros agindo à vontade desde que pagando contribuições sistemáticas. Só uma coisa Diógenes nega: estar falando em nome do governador Olívio Dutra, como aparece na fita. Nesse particular, confessa que mentiu. Em nome do moral petista, Diógenes terá que ser irremediavelmente defenestrado.
Se existe banda podre na polícia, o coordenador passa a ser identificado como um grande especialista em entomologia forense, isto é, a disciplina que estuda interações entre cadáveres em decomposição e os respectivos bichos nojentos que neles se deleitam. Não se assuste: esta é uma técnica moderníssima de investigação. Nada existe entre nós a respeito. É possível, por exemplo, identificar um tipo de mosca que somente deposita seus ovos dois dias completos após a morte. Convertidos em larvas no máximo 25 horas depois, a sequência da vida permitirá descobrir há quanto tempo aquele corpo virou cadáver. Fantástico, para quem sabe investigar com a cabeça e não os pés. Bicheiros-larvas e policiais-cadáveres devem ser bem examinados. Essa necrópsia, pelo menos, o governo gaúcho tem obrigação de fazer. Basta olhar e ver dentro da escuridão. Não é preciso nenhuma lanterna na mão, como Diógenes, o filósofo. Não vamos generalizar. Mas o governo gaúcho precisa amputar.





