INTELIGÊNCIA BURRA
Aparentemente contraditório esse título, não? Mas ele me ocorreu assim que alguns analistas que não sabem analisar começaram a criticar ''fragilidades'' do sistema de informações dos Estados Unidos, que teriam sido incapazes de detectar os destruidores vôos loucos de Nova York e Washington. Se houve fragilidade é porque se exige a existência de órgãos de informações atuantes e capazes em termos de estratégia para a defesa do Estado e das pessoas em geral. Se a crítica é feita, naturalmente se espera que tais deficiências devam ser corrigidas.
Deixemos de lado o que vem a ser isto em termos de CIA, FBI ou Serviço Secreto do Governo. Façamos um transplante da realidade norte-americana para a nossa. A rigor, houve uma evolução da palavra ''inteligência'', que passa a identificar mecanismos de ações militares ou policiais. Temos um probleminha de desmoralização: aqui, alcunhados genericamente de ''arapongas'', os espiões ganharam fama de bisbilhoteiros e inconsequentes. Uma novela da Globo, tendo como protagonista o ator Tarcísio Meira, popularizou, de maneira divertida, a figura do ''araponga'' como protótipo de um observador ridículo.
Deixemos de lado Tarcísio Araponga e vamos ao que interessa em termos de estratégia. Isto é: a informação corretamente trabalhada, sem objetivos traiçoeiros ou canalhas, é aquela que permite avaliar determinada situação, prever seus desdobramentos e inspirar autoridades responsáveis a tomar medidas preventivamente cabíveis. A polícia trabalha com essa inteligência, ainda meio de leve. Alardeia ''meses de investigação'' após a conclusão de um determinado caso, forma que faz pressupor uma organização dinâmica, que sabe esperar o momento certo para dar determinados botes, quando na verdade o epicentro de tudo são informações obtidas clandestinamente ou não, mas muitas vezes através de alguém que não pode aparecer na história de jeito nenhum. O resto é conversa para boi dormir.
Assim, sem neologismos ou redundâncias, poderíamos resumir que em nosso planeta existem ''inteligências'' realmente inteligentes e outras literalmente burras. Prever e prover é lema da intendência, facção de tropa fundamental na Força Terrestre, o Exército. A propósito, Forças Armadas não abrem mão do sistema de informações. Muitos criticam, mas na hora h, quando essas informações são vitais, as cobranças pelo desconhecimento são inevitáveis. Lembram-se daquela greve de caminhoneiros que paralisou as estradas do País? Como ninguém soube disso? As autoridades, presidência da República inclusive, ficaram literalmente vendidas.
Esclarecido esse á-bê-cê da informação, vamos ao que deveríamos saber, socialmente e com desdobramentos criminais, para avaliar situações e agir na prevenção. Vejamos um dado oficial da Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo e que reflete a situação brasileira: dentre 65 mil condenados, 42,3% estão condenados a penas de até 10 anos de prisão e 40,1% até 15 anos. Faixas etárias predominantes: 18-24 anos, 32,4% dos presos e outros 25,3% de 25 a 29 anos. Quer dizer: penas longas, idade baixa. Os números, frios, escondem a alta temperatura social: há uma fábrica de criminosos em pleno funcionamento, gerando bandidos precoces, quase sempre oriundos de uma infância ou adolescência sem estudo, ocupação e lazer, presas fáceis da criminalidade adulta, que os arregimenta metodicamente.
Entraria aqui a inteligência não burra: abandono nas ruas é mola propulsora do crime. A droga aproxima de criminosos de toda espécie. A ligação se processa naturalmente. Nada, ou pouco no conjunto, se faz para impedi-la. A perversidade social fabricou uma proveta de criminosos com produção em série.
Quem souber investir nessa prevenção - eficiente porque inteligente - colherá resultados surpreendentes. É por isso que tecnicamente se afirma que polícia não resolve sozinha. Porque ela lida com fatos consumados, com o ''depois'' e não com o ''antes''. Claro que existem criminosos nas sociedades economicamente fortes. O crime é ímpeto do ser humano. Os comportamentos exigem freios de contenção. A linguagem é de criminologia, mas perfeitamente conectada com a realidade. Em suma: não é preciso ser araponga, nem da Agência Brasileira de Inteligência, CIA, FBI ou seja lá o que for para prever que deixados à margem do presente podem ser os bandidos do futuro. Seria tão difícil assim prever para prover?

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