Os ataques aéreos ao World Trade Center e ao Pentágono deixaram um macabro saldo de mortes, golpeando corações do poder nos Estados Unidos, provocando repulsa mundial contra o terrorismo.

O presidente George Bush disse que os ataques ''nos encheram de descrença, de uma tristeza atroz e de uma cólera silenciosa''. Vamos fixar claramente, então, o significado de duas palavras: terrorismo e retaliação. A primeira deriva de terror, estado de grande pavor ou apreensão, provocando medo muito grande, pois a violência é utilizada como forma de ação política. A segunda quer dizer desforra, represália, vingança, o revide violento.

O professor emérito Rubem Alves, da Universidade de Campinas (Unicamp), diz que antes os lobos ficavam trancados e as ovelhas pastavam mansamente. ''Agora, sem pastores, as ovelhas se trancam em jaulas e os lobos caminham soltos, tranquilamente. O medo nos leva a nos encerrarmos em jaulas. Não nos atrevemos a andar pelas ruas, pelos parques, pelos jardins, pelas praças. E eu me pergunto: de que vale todas as coisas boas que se possam produzir numa sociedade se estamos todos, ao mesmo tempo, condenados ao medo?'' O professor pergunta. Tentemos responder.

Pensemos bem no significado de terrorismo e retaliação. Podemos dizer que não existe terrorismo entre nós porque aviões comerciais ainda não foram arremetidos contra prédios? Parece-me que não. Se terror quer dizer pavor e medo muito grande, temos que admitir que reagimos assim diante de certos episódios do cotidiano que atendem, entre nós, por outros nomes. Vejamos alguns: o sequestro, o assalto, as chacinas. Porque sequestro agora não é mais coisa de rico. Podemos ser apanhados nas proximidades de uma caixa eletrônico e ficar à mercê de bandidos. Alguns desses ataques demoram horas embora os chamem de ''relâmpago''. A vítima, em sobressalto, vive momentos de terror porque não sabe se irá sobreviver incólume. No roubo à mão armada, o mesmo tipo de coisa. Quem garante que aquela arma apontada não irá disparar? As chacinas, ou homicídios múltiplos como se prefere dizer na polícia, montam sempre um cenário aterrorizante com execuções brutais e sistemáticas. Um banho de sangue cruel e implacável.

Infelizmente, temos mais. O tráfico de drogas alimenta uma espiral da violência, destruindo e corrompendo, minando a saúde, enquanto nos perdemos em discussões que ficam distantes a anos-luz da realidade. O poder do tráfico, a ação dos traficantes e o drama dos usuários (que entram nesse mundo-cão do qual, não nos iludamos, é muito difícil sair) também apavoram. Como de igual modo o medo aumenta a sua sombra nas rotineiras fugas de estabelecimentos penais ou rebeliões, onde presos são trucidados por companheiros (e tudo fica por isso mesmo) e a violência sempre é marca registrada desses lugares onde os condenados deveriam ser ''recuperados''.

O medo também amplia o seu espaço quando policiais extrapolam, corrompem-se, tornam-se arbitrários e violentos. Quando espancam. Quando torturam. Quando transformam presas em vítimas inocentes. Assistimos a isso no dia-a-dia brasileiro. São ''exceções'', como se gosta de explicar. Só não se explica que entre bandido violento e policial que não sabe separar cidadão de bandido, a população sente-se como marisco entre o mar e o rochedo. É difícil.

Também é de espantar o drama causado pela vontade de comer. A fome é sinistra. É apavorante. Se a fome é causada pela miséria, invenção do nosso tempo para uma humanidade que sempre conheceu a pobreza, esta é outra forma de terrorismo. E quando olhamos para as subabitações, as favelas, onde miséria e fome andam de mãos dadas? Mais um sintoma sinistro da sociedade que construímos. Na nossa lista entra o desemprego, que destrói a estabilidade de famílias inteiras, gerando um estado de angústia e perplexidade quando sua soma atinge centenas, milhares. Também não é possível reagir sem nenhum medo vendo as crianças perambulando pelas ruas das grandes cidades, sozinhas. Geração abandonada que assusta. Vamos esperar que aconteça o que? Igualmente apavorante. Deixo a seu critério interpretar o significado de ''retaliação'' nesse contexto. Sinal vermelho para todos que olham com simpatia para formas de terror, pretendendo justificá-las. Ninguém precisa gostar de Bush. Mas que no ar paira mesmo uma cólera silenciosa, não existe mais dúvida.

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