Percival de Souza
A novela Abranavel se arrasta, com script imprevisto. De repente, surgiram analistas do nada. Assim como Patrícia Abravanel transformou a sacada de sua casa em púlpito, quando foi libertada do cativeiro em troca de R$ 500 mil, o mesmo cenário foi adaptado para um palanque político, sem pé e nem cabeça. Mas, ainda que mal pergunte: a quem interessa transformar o caso em ópera bufa?
Sem ter muito o que dizer, os primeiros críticos de plantão manifestaram-se contra a presença do governador Geraldo Alckmin diante do sequestrador Fernando Dutra Pinto, mantendo o empresário Silvio Santos como refém em sua própria casa. ''Péssimo exemplo'', foi dito por aí. Quando visitei a Academia do FBI (a Polícia Federal dos Estados Unidos) em Quântico, na Virgínia, soube da existência do HRT - Hostage Recue Team. É como uma Swat das Swats. O FBI ensina (inclusive para policiais brasileiros que fizeram curso com os norte-americanos) que em cenário de gerenciamento de crise (é assim que os policiais especializados se referem aos sequestros) ninguém - a não ser os profissionais do ramo - deve meter o bico. Ou seja: nada de religioso, político, candidato a qualquer coisa, imprensa ou advogado. Ou seja: não se deve transformar o cenário em palanque. Anos atrás, em episódio similar aqui no Paraná, assistimos algo sui generis: uma freira comandava as ações policiais e um coronel da Polícia Militar rezava. Hilário se não fosse trágico. Quem não é do ramo somente atrapalha.
No caso Silvio Santos, o governador foi ao local em circunstâncias excepcionais. O sequestrador acusado queria tão somente a garantia de continuar vivendo. Tinha receio de ser morto pelos colegas dos dois investigadores de polícia que ele havia assassinado na véspera. Os críticos de plantão são, curiosamente, os mesmos que aplaudiram a interferência do então cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Evaristo Arns, nas negociações para libertação do empresário Abílio Diniz. Os críticos são reincidentes específicos quando, diante de uma rebelião em Curitiba, acharam ótima a intermediação do ministro da Justiça, José Gregori - o mesmo que fez tudo para que dois dos sequestradores, canadenses, fossem cumprir pena em seu país.
Esclarecidos esses casos de estranhos no ninho, vamos a dois detalhes de bastidores do caso Silvio Santos e Patrícia Abravanel, uma das filhas dele. Vou revelá-los apenas para que se tenha uma idéia da tensão durante as intermináveis (porque angustiantes) horas de contato com os sequestradores.
1- Por questões familiares, vem ao caso mencionar aqui, Silvio não estava em casa quando o sequestro aconteceu. Voltou para casa por causa disso. Foi hábil e convincente. Designou o sobrinho como elo de ligação. O detalhe é fundamental: esse difícil papel deve ser desempenhado por alguém menos pressionado psicologicamente. É mais um ponto dos ensinamentos vigorosos do FBI a respeito.
2- Decidir o valor do resgate é outro ponto delicado. Os sequestradores queriam muito mais: dois milhões em dólares e mais dois em reais. Quando se chegou ao patamar de 500 mil, Silvio sussurrou insistentemente ao lado do sobrinho: ''Fale meio milhão em vez de 500 mil''. Porque ''meio milhão'' soa de forma mais sonora, mais tentadora. Assim se fez. Assim se conseguiu o acordo. Saindo do palanque que não interessa em assunto grave como este, vamos ver outro detalhe importante do chamado teatro de operações: gente que não faz parte da unidade policial de investigação ou ação tática também não deve participar. Dois policiais civis perderam a vida no flat onde o chefe do bando se escondia no condomínio Alphaville. Morreram, e lamenta-se, mas por quê? Porque a faxineira do quarto onde Fernando se hospedava descobriu sob a cama quase o valor integral do resgate pago, muitas armas de fogo, munição e um silenciador. Avisou a segurança. Que por sua vez avisou um delegado que nada tinha a ver com isso, porque titular de uma delegacia no Ceasa. Ele foi ao local, apanhou o dinheiro e levou-o consigo para a delegacia, deixando para trás os dois investigadores (que seriam mortos) e as armas. Quer dizer: preocupou-se apenas com o vil metal. Nada mais. Nada, absolutamente nada, pode justificar esse comportamento. Moral da história: sequestro não é tema de palanque nem tema para amadores e palpiteiros abrindo a boca para falar do que nada entendem. O palanque, então, se torna um perigo...





