Percival de Souza
NOVELA ABRAVANEL
Capítulo 1 - Entre Pícara Sonhadora, a novela de estranho título no SBT, e a aventura de Patrícia Abravanel, seguida do drama de Silvio, o pai dono da emissora, intercalada com a fuga de um prédio quando o chefe dos sequestradores deixou dois policiais mortos para trás, o grande caso da semana dominou noticiários de rádios, jornais e TVs e abalou a Bolsa de Valores. O enredo tem mais ingredientes. A moça refém é evangélica e quando saiu do cativeiro falou 69 vezes sobre Deus, transformando a sacada de sua casa no bairro do Morumbi, em São Paulo, no maior púlpito que já se viu no Brasil. Mas também fora evangélico o chefe dos sequestradores da moça falante, a ''matraca de Deus'' segundo o irreverente José Simão. Fernando Dutra Pinto, o sequestrador-matador, chegou a frequentar a igreja regularmente, como um dos oito filhos de Antonio Sebastião Pinto, homem temente a Deus de quem até hoje os filhos pedem a bênção quando estão chegando ou saindo de casa. Do sequestro de Patrícia, participou também um irmão de Fernando - Esdras, mesmo nome bíblico de um sacerdote da linhagem de Aarão, antecessor de Neemias. Não é preciso dizer mais.
Capítulo 2 - Na escuridão da noite, sim e não podem ser irmãos, escreveu o poeta Ledo Ivo. Sim e não, os opostos, os antagônicos, antítese, cruzam-se pelos caminhos do destino, segundo alguns. Ou caminhos são feitos quando a gente caminha, dizem outros. O fato é que algoz e vítima, sequestrador e sequestrada, encontraram-se no cativeiro. As palavras da moça evocaram o passado de Fernando. Lembrou-se daquelas coisas boas que havia aprendido na Escola Dominical da Assembléia de Deus, a maior congregação evangélica brasileira. Arrepiou-se. A moça teve direito a chá quente, ligar a TV na Rede Gospel e até a jogar baralho.
Capítulo 3 - A imagem dos sequestradores bonzinhos, simpáticos e carentes ruiu no dia seguinte quando Fernando matou dois policiais, feriu um terceiro e escapou pelo lado externo de um prédio, como se fosse um homem-aranha. E também quando, ferido a bala nas nádegas, invadiu a casa de Silvio Santos para usá-lo como refém. O rapaz de 22 anos que matou tinha medo de morrer. Sabia que o pai de Patrícia seria o passaporte para a vida ou para a morte. Conseguiu. No mesmo instante em que se rendia, os policiais assassinados, Paulo Tamotsu Tamaki e Marcos Amorim Bezerra, eram enterrados sob grande comoção de amigos e familiares. Patrícia, antes loquaz, recolheu-se ao prudente silêncio.
Capítulo 4 - Não existe sequestrador bonzinho. Por isso mesmo é que o sequestro está no rol dos crimes hediondos. A vítima é simplesmente uma mercadoria de troca. Se a família pagar o resgate, liberta-se. Se não, pode haver tortura, mutilação, morte. O sequestrador não é simpático. A vítima vai demorar um pouco para perceber que essa reação de certa compreensão deriva do fato de sua vida estar nas mãos dele. Ainda do bandido depende todo contato com o mundo exterior, a volta para casa. O sequestrador é, no cativeiro que pulveriza psicologicamente, o dominante senhor das atitudes e dos rumos a serem tomados. O sequestrador também não é um coitadinho social. Ele precisa de estrutura e dinheiro para sequestrar. Quem acha que ele faz isso para não passar fome ainda não sabe que o bandido contemporâneo está mais para misantropia do que para filantropia. Pícaros sonhadores um dia haverão de compreender.
Capítulo 5 - Silvio Santos pediu à imprensa para nada noticiar até o fim do sequestro. O juiz da 17 Vara Cível de São Paulo condenou a TV Globo por ''desrespeitar o direito à vida'' em outro caso de sequestro em andamento, fazendo uma pioneira distinção entre interesse público e interesse do público. Este último ''não passa de bisbilhotice frívola ou mórbida'', segundo o Ministério Público Estadual. Fica claro que sequestro não é só uma pauta de reportagem ou uma matéria a ser editada. É muito mais do que isso: representa uma vida em jogo.
Capítulo 6 - Aprendamos todos em vez de arremessar pedras contra pessoas, condições sociais e circunstâncias paralelas. A sociedade, está aí a lição, é geradora de profundos fatores criminógenos. Patrícia e Fernando são os protagonistas dessa história fantástica. A questão fundamental, aqui, não é atacar ou defender. É aprender com tudo isso que acabamos de assistir nesta grande novela da vida.





