Percival de Souza
TRILHA DO MEDO
Se a barra anda cada vez mais pesada nos grandes centros urbanos, onde a criminalidade galopa e triunfa, e tudo o que a sociedade possui em termos de mecanismos de contenção (polícias, aparato judiciário, sistema prisional) deixa cada vez mais a desejar, duas perguntas se tornam inevitáveis: onde vamos parar? Isso tem solução?
Nos últimos dias, o sequestro de uma moça em São Paulo, filha de conhecido empresário, colocou os meios de comunicação na berlinda. A família da jovem implorou para que o caso não fosse divulgado, temendo pela vida da jovem. Todos os veículos, menos uma organização, respeitaram o apelo. Quem disse sim, entendeu que a divulgação poderia colocar em risco a vida da vítima. Quem disse não, preferiu raciocinar ao contrário: o silêncio beneficiaria apenas aos bandidos, e no crime de extorsão mediante sequestro revelar o que está acontecendo ajuda mais do que atrapalha. A balança pode pender para este ou aquele lado. Quando o assunto é garantia de vida, não se pode pensar de forma burocrática. É evidente - e a Constituição é clara a respeito - que nenhum direito invade a seara do outro. Decisões a respeito devem ser éticas, humanitárias, sensatas. Porque envolvem segurança. E muito medo. O episódio, de qualquer forma, colocou mais combustível na pira da violência.
Para ajudá-lo, leitor, a fundamentar seu pensamento sobre o problema que é de todos nós, conversei com duas pessoas que exercem cargos públicos com responsabilidade direta sobre políticas de repressão ao crime: o coronel Jorge da Silva, coordenador de Segurança, Justiça, Defesa Civil e Cidadania do Rio de Janeiro, e o secretário da Segurança de São Paulo, Marco Vinicius Petreluzzi.
O coronel Jorge, que já foi subcomandante-geral da Polícia Militar, acha que no Rio sucessivas políticas de segurança foram agressivas e o discurso de cada governante explicita o que se pretende. Acredita, contudo, que posições de alguns coronéis ou delegados não refletem o espírito da polícia como um todo. Admite que o fato de escolhas sobre chefias e comandos serem mais políticas do que profissionais dificultam. Exemplifica: muita gente usa o discurso do armamento dos policiais possuir menos poder de fogo do que o crime. O coronel argumenta que a polícia já possui em seu arsenal armas poderosas, de grande impacto, e nem por isso o poder de certo tipo de criminoso, particularmente o traficante, arrefeceu. Em resumo: o coronel, guru do governador Anthony Garotinho para esse tipo de assunto, defende a idéia de que a sociedade precisa consertar muita coisa em vez de cobrar soluções exclusivamente da polícia.
O raciocínio encontra paralelo com o que pensa o secretário da Segurança de São Paulo. Para Petreluzzi, ''estamos no limite na área de repressão''. No caso do armamento, argumenta que o único país que usa metralhadora como arma-padrão é o Paraguai. E se recusa terminantemente a considerar esse modelo ideal para a Polícia de São Paulo. E tem razão: apertar o gatilho da metralhadora em lugar onde haja muitas pessoas coloca em grave risco a vida de muita gente que nada tem a ver com o confronto polícia versus bandidos.
O eixo Rio-São Paulo vive um momento de confronto político em matéria de segurança pública. O governador Garotinho pretende abrir uma estrada para o Planalto: diz que para os seus lados as coisas andam mais tranquilas do que São Paulo. O governador Alckmin, como já fazia Covas, odeia a comparação. Fiéis a seus governadores, Petreluzzi e Jorge não se bicam. Então, ficamos assim: de um lado (mais numeroso), a sociedade clama, protesta, reivindica. A polícia, como vimos, se coloca dentro de limites cada vez mais estreitos, trabalhando sempre com os efeitos. Não existe fórmula pronta para enfrentar o dilema que envolve a todos nós. Confrontado a cada dia com a realidade, o falatório vai se tornando cada vez mais inócuo, irritante. Como se falar e agir fossem verbos muito distantes um do outro, inconciliáveis, enquanto o advérbio ''já'' cobra mais e mais. Porque quando o crime e a violência crescem mais do que a sociedade, é justamente a sociedade que está falhando. Quando diz que a polícia está agindo no limite de sua capacidade, o secretário da Segurança paulista está dizendo que não se pode fazer mais. Traduzindo: a cota da polícia é essa mesma. A sociedade precisa fazer a sua parte, criando sinônimos eficientes para a palavra prevenção.





