Percival de Souza
HERÓIS DE PÓ
Quando usar droga vira prática incorporada aos usos e costumes, os traficantes rondam como abutres as presas psicologicamente vulneráveis. Na consumocracia, onde o consumo ergue templos lotados de frenéticos seguidores, o traficante sabe que o tráfico, para ele um ótimo negócio, também é regulado pela lei da oferta e da procura. Como se esse tipo de relação fosse de mercado, absolutamente normal.
O discurso da prevenção soa frágil em nosso País onde não se consegue estabelecer uma política antidrogas eficiente. Os xerifes do planeta, reunidos nas últimas reuniões da Interpol, a Polícia Internacional, sabem - trocando informações - que 85% das drogas que partem de um determinado lugar chegam ao destino, são entregues e consumidas. Portanto, na política global existe um fracasso na repressão e na prevenção. Os discursos estão distantes da realidade. Tem gente que diz que quer prevenir mas na verdade quer liberar.
Existem pessoas que participam cinicamente de conselhos de prevenção, mas são favoráveis ao uso das drogas. São cínicas porque em vez de agitar bandeiras pró-maconha, pró-cocaína ou pró-crack ficam covardemente camufladas como se fossem agentes da prevenção e, na prática, consciente ou inconscientemente, fazem o marketing do traficante. A repressão, por sua vez, raramente consegue colocar as mãos nos expoentes do tráfico. Gosta de apresentar gráficos, repletos de nomes e apelidos, apresentando um mapeamento dos cartéis. Parece que sabe de tudo. Mas pouco faz.
Tecnicamente, uma palavra que tem muito sentido, quando se fala do dependente químico ou do usuário, é adicto. Ela quer dizer, etimologicamente, escravo. E diz tudo. Os que defendem a substância química transformando pessoas que se aniquilam pessoal, familiar, profissional e socialmente também são escravos de idéias que deveriam estar confinadas em sarcófagos. A postura obtusa em nome da prevenção aliada à ineficácia da repressão - incompetência de mãos dadas, num romance sinistro de consequências nefastas para a sociedade - nos mergulhou na situação em que nos encontramos. Vamos ver um de seus últimos sintomas.
A Unesco - órgão das Nações Unidas para assuntos de educação, ciência e cultura - fez uma pesquisa no Brasil e ouviu 4.300 jovens carentes dos maiores centros urbanos. Os jovens consideram os traficantes de drogas seus verdadeiros heróis. Eles deixaram claro que pensam assim porque nos lugares onde moram, esquecidos pelo Estado, é o traficante que aparece como alguém bem-sucedido: demonstra poder e influência, tem dinheiro para comprar objetos de consumo como boas roupas e tênis importado. Satisfaz os sonhos caros.
Transforma-se, então, na referência, no modelo, no objetivo a ser atingido. A coordenadora da pesquisa, Mary Garcia Castro, sintetiza: ''O vazio do lazer, da cultura e do esporte é ocupado pelo tráfico e pela violência.'' Que fazer para retirar o jovem do olhar de medusa do traficante? Eis a questão. ''Estamos disputando os jovens com o lado de lá'', diz Mary. ''A verdade que eu conto nua e crua vale mais que a grandíloqua escritura'', escreveu Camões em Os Lusíadas.
Ressalte-se que a mesma Unesco deu um certificado para 30 entidades brasileiras que fazem um bom trabalho preventivo. Ainda bem que elas existem, ao contrário dos cínicos falam e nada realizam. Algumas dessas entidades - luz no túnel! - estão aqui no Paraná, de onde estão partindo bons exemplos, como a Escola de Rodeio, para jovens carentes. O caminho é oferecer um serviço que ajude a qualificar profissionalmente, dê sempre uma ocupação e não se esqueça do lazer.
Nos últimos dias, a TV mostrou no Rio de Janeiro as drogas sendo oferecidas abertamente em alguns morros. Inclusive com tabela de preços. O governador reagiu dizendo que as imagens deveriam mostrar também a venda e consumo na zona sul, em lugares que ''todo mundo sabe''. Ora, se todo mundo sabe ele também deveria saber. E agir. Garotinho parecia um moleque travesso nessa história. Melhor ficar, então, com a antropóloga Alba Zaluar definindo a situação do policial nesses lugares: como reprimir o tráfico sem apoio dos moradores? Um morador de favela corre risco de fazer denúncia porque, depois, ''fica à mercê dos bandidos''. Os heróis de pó têm perfis iguais e só mudam de endereço. É triste, avassalador, perturbador, desafiante, realista, chocante, dominante, preocupante, repugnante, destruidor. Mas está sendo assim.





