Da Bahia para Alagoas, de Pernambuco para o Paraná, um movimento - estranha sombra que acompanha o corpo - envolve a Polícia Militar, seduz a Polícia Civil, ameaça metástase em São Paulo e deixa os brasileiros perplexos com o deboche que envolve a segurança pública, direito constitucional de todos nós.
A polícia rebelde, como todo iceberg, possui uma pequena face visível e a maior parte permanece submersa. O que estamos assistindo - ou seja, a parte visível - apresenta aspectos que podem ganhar simpatia, outros que causam revolta, enquanto as escaramuças ganham repercussão em cima de encapuzados ou daqueles que, às ocultas, instruem suas mulheres para fazer o que eles não ousam, usando-as como escudo político capaz de causar constrangimento aos próprios companheiros.
Pelo Brasil efervescente das desigualdades sociais, está sendo exibido o replay policial dos acontecimentos de 1997, que se originou em Minas Gerais (onde um policial militar foi morto por um próprio colega) e chegou ao Ceará (onde o comandante-geral da PM foi baleado). Pior seria se, na corrosão do estado democrático de direito, esse efeito retroativo nos conduzisse a 1964. Cuidado, pois.
Se as coisas continuarem assim, o Exército vai ter que manter uma unidade militar inteira sempre disponível para mostrar presença onde o princípio da autoridade faliu. Ressalte-se, aqui, que reivindicação justa é uma coisa e a forma usada para obter melhorias outra. Salarialmente, todo brasileiro está achatado. A economia informal ganha cada vez mais espaço como forma de sobrevivência. Portanto, se cada um ou cada categoria resolver fazer o que bem entender, a vida em sociedade se tornará absolutamente insuportável. Mas vamos nos restringir às coisas da segurança. Primeiro, refrescando a memória: onde estão os projetos para reformular o nosso modelo de segurança? Nas gavetas do legislativo federal. Onde está o Plano Nacional de Segurança do governo FHC? No limbo.
O que cada brasileiro deseja nessa matéria? Simplesmente o direito de não ser atacado, ferido ou morto; que sua casa não seja invadida por ninguém; que não fique tremendo de medo, imaginando coisas, quando os filhos demoram um pouco mais para retornar ao lar; que o salário obtido com o suor do rosto não troque subitamente de mãos diante da arma que se vê bruscamente à frente e que pode disparar, dependendo do que se tem no bolso ou na bolsa. É pedir demais? É ver segurança em termos utópicos? Claro que não.
Aí entra o modelo que temos. É anacrônico, todos sabemos. A polícia também sabe. Mas reluta-se, por toda parte, em mudá-lo. A quem serve isto? A ninguém. Ao longo da semana que passou, telefonou-me um colega da imprensa dos Estados Unidos. Queria a minha ajuda para procurar entender o que está acontecendo no Brasil. Consolei-o: ‘‘Não se preocupe com isso. Nós também não estamos entendendo.’’ Por que é tão difícil explicar? Porque é difícil entender. Em Alagoas, os oficiais pensaram apenas no direito deles, colocando-se num Olimpo e contemplando, bem de longe, as praças (soldados, cabos e sargentos). Em Pernambuco, na hora h quiseram fazer de conta que a Polícia Civil não existia. Se até num momento desses acontecem coisas assim, imaginam os mesmos personagens no dia-a-dia. Quer dizer: temos duas polícias, uma atropelando a outra, competindo entre si (às vezes de maneira feroz) e praticamente fazendo a mesma coisa numa dualidade absurda. Por outro lado, os escalões representativos capazes de alterar esse status quo continuam preferindo ignorar por completo (como se vê no momento atual, quando se procura alterar dispositivos do Código de Processo Penal) os representantes da polícia para torná-la melhor. Como se fosse possível, mutatis mutandis, pretender-se mexer no Judiciário sem consultar nenhum juiz, mudar o Ministério Público sem ouvir promotores, criar um novo modelo hospitalar sem consultar médicos ou transformar o modelo de ensino sem dar voz a nenhum professor. Seria absurdo. Mas é exatamente isto que está acontecendo com a nossa polícia. A maioria dos secretários da Segurança é neófita na matéria. Na Bahia, uma delegada de Polícia é a secretária da Segurança por um motivo clássico do coronelismo: esclareceu o caso de um furto na casa do ex-senador Antonio Carlos Magalhães. Pronto: bastou para virar chefe de toda a Polícia. Axé!
Entendeu agora porque esse assunto é um iceberg? Por este e muitos outros motivos. Um deles atingiu o grande navio. A segurança está sendo o nosso Titanic. Afundando rapidamente.

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