Percival de Souza
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de julho de 2001
Percival de Souza 
Os baianos de Salvador viram como é viver sem polícia nas ruas, sentindo na própria pele os efeitos de certos sonhos delirantes, que contemplam na palavra repressão algo profundamente nocivo para a tão desejável harmoniosa vida em sociedade. Como ficou demonstrado de maneira palpável, mais uma vez, não é nada disso. As tropas do Exército foram forçadas a desembarcar ruidosamente na terra dos soteropolitanos.
Precisamos de polícia. Sempre precisaremos dela, no sentido da origem da palavra, isto é, a guarda das cidades. Pelas ruas não andam ou voam apenas os anjinhos, como assistimos a cada dia e vimos na bela Salvador, onde a população, em pânico, viu-se prejudicada em seus direitos fundamentais, entre eles o de ir e vir: bancos fechados, lojas saqueadas, linhas telefônicas congestionadas, arrastões, tiros, mortes, roubos, furtos e tudo que nenhum de nós deseja ver incorporado ao seu cotidiano.
Sendo insofismavelmente assim, temos de saída duas situações que precisam ser imediatamente levadas em consideração:
1) Os responsáveis pela segurança pública precisam ser valorizados, reconhecidos, estimulados, preparados. Todos os sintomas, porém, são de que nossos governantes de plantão não querem a polícia que a sociedade deseja. Fazem tudo ao contrário: pagam mal, desconhecem o valor da auto-estima, não criam o espírito de preparar profissionais que sabem o que devem fazer em cada ou determinada situação. Não estamos falando aqui deste ou aquele lugar, especificamente, e ainda evitamos falar de exceções como se fossem regras. Em sentido amplo, a Polícia Militar no Brasil está sendo corroída ao se converter em ameaça ao Estado Democrático de Direito, levando paulatinamente à falência o conceito de autoridade e ferindo de morte o binômio hierarquia-disciplina, sustentáculo da corporação policial fardada desde os tempos da criação por D.João VI, em 1806, da Guarda Real de Polícia. É deplorável ver policiais fardados, encapuzados, exibindo armas ostensivamente, meros imitadores de ostentação semelhante - antítese! - pelos rebeldes presidiários do Primeiro Comando da Capital, a organização criminosa que infesta os presídios paulistas;
2) A população não é diretamente responsável pela incompetência ou falta de energia dos governantes, que gera apagões em áreas vitais da sociedade, como a de segurança pública. Na Bahia, a Tropa de Choque aderiu aos rebeldes. Ressalte-se que o Choque é justamente a tropa reserva de cada Comando Geral de PM. A corporação ainda vai pagar um preço alto por isso, correndo inclusive riscos de sobrevivência quando a segurança pública for discutida por gente do ramo e não pelos incompetentes dominantes de hoje. Além disso tudo, a PM ameaçadoramente aquartelada mergulha numa profunda contradição. Porque se fossem setores da população se manifestando dessa mesma maneira, sob pretexto reivindicatório, a PM viria para cima com cassetetes, tiros de borracha ou de chumbo, cavalaria, cães e tudo mais. Na época da ditadura militar, a PM de hoje seria considerada profundamente subversiva. A propósito: a polícia de São Paulo - tanto a Civil como a Militar - foi fazer curso para encaminhar protestos salariais com a CGT, a CUT e a Força Sindical, prometendo infernizar a vida do governador Geraldo Alckmin.
Se o policial preferir ser tratado como trabalhador da segurança, não pode empunhar armas na hora de pretender melhorias, confundindo reivindicação justa com maneira totalmente imprópria de se manifestar, sob pena de transformarmos nossas ruas em versões de Tombstone do velho oeste. Não é tolerável conversão de tropa em bando armado. Cobrir o rosto quer dizer estar disposto a fazer qualquer coisa sem ser identificado. Turba nunca tem rosto.
A Bahia em transe de hoje lembra a Bahia do final do século XIX, quando Antonio Conselheiro fundou o arraial de Canudos e o governo do Estado, inepto, recorreu às tropas federais com o pretexto (falso) de que nos sertões estaria se articulando uma resistência à República que se acabara de proclamar.
Euclides da Cunha imortalizou a história na sua obra, lançada há 99 anos, onde os capítulos O Homem e A Luta traçam as contradições daquele tempo pouco diferentes das contradições de hoje. Como diria o Conselheiro, chegará o dia (tomara que não seja dos nossos tempos) em que teremos muitos chapéus e poucas cabeças.


