Percival de Souza
Ubiratan Guimarães, coronel da Polícia Militar já na reserva, é o grande réu no julgamento, pelo Tribunal do Júri em São Paulo, do caso da invasão e 111 mortes na Casa de Detenção, em outubro de 1992. No Fórum onde está acontecendo o julgamento, que ainda vai se arrastar por muitos dias, uma platéia com idéias totalmente opostas assiste a tudo. De um lado, apoio forte ao coronel. 111 foi pouco, bradam alguns. Foi coisa de Hitler, vociferam outros. O coronel esperou o julgamento alternando leituras de Maquiavel e Gandhi. Achei curioso porque o pensador indiano buscava mais a libertação do próprio ego do que escapar da tirania dos ingleses. Disse Mahatma Gandhi: Sede vós mesmos, e deixai que vosso irmão seja ele mesmo. Amai-o por causa disso e não apesar disso. Aprendei a ver nele aquilo que vos falta e a dar a ele aquilo que lhe falta. Filosofou Nicolau Maquiavel: Para predizer o que vai acontecer é preciso entender o que já aconteceu. Estou tentando imaginar esses ensinamentos na cabeça de Ubiratan, o comandante da tropa de choque que arrasou a grande cadeia.
Odiado e aplaudido, execrado e elogiado, defensor da sociedade e comandante de massacre, o coronel vive a contradição de análises e sentimentos sobre o que aconteceu naquela tarde de sexta-feira, quando muitos presos foram metralhados certeiramente no tórax e na cabeça. Ubiratan descobriu Maquiavel e Gandhi depois de tudo isso. É verdade que juridicamente falando é necessário individualizar, no caso, graus de participação. Porque não foi o coronel o autor dos disparos. Existe a voz do comando, circunstância mais forte no Código Penal Militar e não na Justiça comum. Também é verdade que o mundo espera uma resposta para o episódio que marcou de sangue a imagem do Brasil no planeta a ponto do próprio governo do Estado querer desativá-la. Dentro da proposta de Maquiavel, há muitos anos procuro decifrar os enigmas desta Casa de Detenção, o maior presídio da América Latina. Quando entrei nela pela primeira vez, lá estavam 2.500 presos. Hoje são mais de 7 mil. Vivi um mês na Detenção, nos anos setenta, para escrever o livro A Prisão. Continuei visitando o presídio para outras obras, reportagens, ensaios e cursos. Para entrar na cela, o prisioneiro novato precisa retirar os sapatos. Os demais presos consideram-se ofendidos se ele entrar calçado. Se fizer isso, será espancado pela primeira vez. As grades não têm vidros. O vento entra direto, o frio chega a ser insuportável. Quando vento e chuva se misturam, tudo fica molhado. Nos acertos de contas, dia-a-dia das quadrilhas que cobram na cadeia as diferenças do mundo externo, os duelos são à faca. Os espectadores abrem uma roda. Se a vítima está indefesa, é mais fraca, um coro ensurdecedor corre o pátio: Vai morrer, vai morrer! Das paredes das celas, sai um cano, do qual escorre água bem cedinho e ao entardecer. Hora do banho, hora de guardar água. Sem visita enquanto outros recebem visita, é difícil não chorar. Mas chorar escondido, porque é proibido espalhar tristeza num mundo naturalmente triste. É aqui, e assim, que a sociedade pretende recuperar o preso. Lendo isso, você poderá ficar chocado ou reagir achando que eles não merecem mesmo outra coisa, que devem sofrer bastante para pagar o que fizeram aqui fora. Claro que fora existem famílias destroçadas, amarguradas, traumatizadas em consequência das ações implacáveis de criminosos. Mas a realidade é esta: dor aqui fora, dor lá dentro. Nesse cenário, em que o embrutecimento vai conquistando cada vez mais espaço, policiais e presos se odeiam. Dentro e fora da prisão. Os dois lados têm muito do que se queixar. Portanto, como diria Maquiavel, é possível predizer o que vai acontecer. O conselho de Gandhi fica difícil de ser aplicado pois não é fácil ver no preso aquilo que nos falta e dar a ele aquilo que lhe faz falta.
O julgamento do coronel passa por tudo isso. Juiz formulará os quesitos, jurados responderão um a um. E no veredicto, saberemos como estamos, enquanto sociedade, na apreciação de um fato que, se autopsiado, revelaria o ser humano em aguda fase de decadência. O coronel busca respostas em Maquiavel e Gandhi. Os jurados terão que encontrar respostas dentro de suas próprias cabeças. E nós, irritados ou contentes, consideraremos o resultado justo ou injusto.





