Num ritual de quatro minutos, com direito a espectadores satisfeitos em ver alguém morrer, Thimothy McVeigh chegou ao fim da vida aos 33 anos de idade após aplicação de uma injeção letal, dentro da Penitenciária de Terra Haute, Indiana, Estados Unidos. Faz uma semana, amanhã, que isso aconteceu.
Ninguém é obrigado a morrer de amores por um homem capaz de provocar gigantesca explosão dentro de um edifício federal, no ano de 1996, causando a morte de 168 pessoas. Havia 19 crianças entre as vítimas. Entre executá-lo e mantê-lo no cárcere, as opiniões - como sempre - se dividiram. Vingança bárbara para alguns, punição exemplar para outros. Opiniões divergentes exemplificadas através de dois cartazes empunhados do lado de fora da penitenciária por manifestantes contrários ou a favor da pena de morte.
‘‘Lembremo-nos das vítimas, mas não com mais mortes’’, dizia o primeiro grupo. ‘‘Apodreça no inferno, McVeigh’’, bradava o outro. ‘‘Foi um ato de justiça e não de vingança’’, disse o presidente George Bush. ‘‘Não teremos mais de viver no mesmo mundo que ele’’, comentou a irmã de uma das vítimas do atentado. ‘‘O atentado foi criminoso, reprovável e não tem justificativa, mas não creio que a pena de morte ajude em algo’’, ponderou Nelson Pellegrino, o deputado federal que preside a Comissão de Direitos Humanos da nossa Câmara dos Deputados.
As opiniões acima são suficientes para o nosso balizamento pessoal. Ou seja: a cena da explosão e dezenas de mortes e, seis anos depois, a morte do assassino. De que lado ficamos? Eis a questão. A execução de McVeigh teve 24 testemunhas. Decepção para quem imaginava vê-lo tremer de medo. Nada disso: o terrorista pediu como última refeição dois potes de sorvete, deitou-se sozinho na mesa de execução e ficou o tempo todo encarando firme a câmera de TV instalada no teto da sala da morte. Não quis deixar palavras de despedida mas distribuiu cópias de um poema escrito em 1875 por William Henley, poeta inglês, que termina assim: ‘‘Sou o senhor do meu destino; sou o capitão de minha alma.’’ Com essa sinopse adicional, vamos refletir sobre esse assunto incômodo, apaixonante e ao mesmo tempo indigesto.
Comecemos pelo poema final. O condenado adotou o silogismo como forma provocadora de despedida. É que este poema, chamado ‘‘Invictus’’, foi escrito dentro de um contexto sem ajuste com os motivos que levaram McVeigh à morte. Condenado (terrorista) e poeta (pacifista) são incompatíveis. É que Henley diz assim no poema citado: ‘‘Não importa quão estreito seja o portal. Ou a condenação aos castigos do édito. Sou o senhor do meu destino. Sou o capitão da minha alma.’’ Henley preferia, como observa J.C.Ismael, cantar a compaixão, o espanto e a alegria de viver. Henley inspirou o escritor Robert L. Stevenson a criar o empresário de piratas Long Silver no clássico da literatura ‘‘A Ilha do Tesouro’’.
Cheguemos ao homem que alguns preferem classificar como ‘‘monstro’’. Anos atrás, o mesmo governo federal dos EUA o havia condecorado como herói da Guerra do Golfo. Ali matou muita gente, mas fez tudo dentro deste mar das contradições humanas. Como olhar para McVeigh? Monstro mesmo ou desafio para que se perceba até que ponto o ser humano é capaz de chegar? Monstros se formam a partir de homens que não nasceram monstros. Resta saber se, além de sermos capazes de produzir a metamorfose homem-monstro, teríamos condições de criar homens a partir de monstros. Difícil, até mesmo pensar nisso.
Paremos no que podemos pensar que seja o mais fácil. Vejamos, só como exemplo, a China. Em dez dias do último mês de abril, 120 pessoas foram executadas. Haviam praticado crimes como homicídio, estupro e tráfico de drogas. Corrupção também. A morte se apresenta como espetáculo: o condenado é levado para um estádio, onde platéias de até 30 mil pessoas se acotovelam, para assistir ao momento do disparo de um tiro na nuca. A conta do projétil utilizado é mandada para a família do morto. O governo acha que ele não merece nem o gasto com o chumbo. A pena de morte é adotada hoje em 63 países.
Imaginemos por um instante esse cenário mais próximo de nós. Sabemos exatamente o que queremos na hora de adotar medidas punitivas, ressocializantes ou não, na hora de definir modelos de legislação? Apreciamos ou rejeitamos os estilos norte-americano e chinês? Perguntas para todos, perguntas para cada um.

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