Percival de Souza
Os seis assaltantes chegaram e, na maior cara-de-pau, levaram quase R$ 340 mil de quatro caixas eletrônicos, na manhã da última quarta-feira, no Rio de Janeiro. Seria corriqueiro, como reagiu com displicência o secretário da Segurança carioca, Josias Quintal, se o roubo à mão armada não tivesse sido praticado no prédio da Secretaria da Segurança Pública.
É o tipo de caso que pega muito mal para a Polícia, agora alvo normal, como tantos outros, de investidas semelhantes como esta, num posto do Banerj, o Banco do Estado do Rio. Pega mal porque além do dinheiro roubado o episódio apresenta uma marca registrada que não pode ser ignorada: desprezo, pouco caso, falta de qualquer preocupação. Para a população, isso quer dizer que, se os bandidos são atrevidos desse modo, atacando instalações da coordenação da polícia, fica fácil imaginar do que são capazes de fazer nas ruas, nos prédios, nas casas, nas lojas - em qualquer lugar, enfim. A polícia do Rio parece não ter percebido o detalhe. Do mesmo modo, fica muito mal quando a bandidagem invade delegacias e presídios para resgatar presos; também fica péssimo, horrível, quando eles praticam atentados, roubos, agressões quase em frente aos prédios da polícia. É sinal de desrespeito total, provocando na população reações de espanto e angústia. Parece pacífico que o grau desejável da democracia real é atingido quando os cidadãos são capazes de pensar sozinhos.
Segundo o médico Nelson Senise, a angústia não é um fenômeno dos nossos dias. A sua origem está intrinsecamente ligada à existência de todos os seres, racionais ou irracionais, mas as paixões, os arrebatamentos e as depressões, o sublime e o vil, a grandeza e a mesquinhez só atingem o homem no jogo natural de atração e repulsão da vida. É desse dilema que ele sofre, ri e chora, realiza-se ou frustra-se. Esse tipo de sensação está nitidamente associado ao temor que certos episódios causam. Talvez por isso o geógrafo Milton Santos, professor emérito da USP, uma das grandes cabeças pensantes de nosso país, diga que o mundo atual é confuso e confusamente interpretado, o que acaba por autorizar o apego a chavões, a meias-verdades. Ele lamenta que a vida intelectual brasileira ainda esteja confinada em torno de clubes, clãs e turmas. Na área criminal, não é diferente. O caso do roubo na Secretaria da Segurança do Rio estimula a pensar sobre fatos concretos. Como ficamos, se até a polícia é atacada?
A propósito, conversando anteontem com o secretário da Segurança de São Paulo, Marco Vinício Petreluzzi, ele procurava contar como se administra esse tipo de coisa. Sim, admite, a população precisa desfrutar de uma certa sensação de segurança. Daí a necessidade do policiamento visível, ostensivo, ao menos em determinados pontos. Do mesmo modo, é importante a resposta rápida diante de certos casos, para que não fique a impressão de que os bandidos estão levando vantagem, como estão mesmo em vários Estados. A propósito: somos uma federação e não uma confederação. A salutar autonomia dos Estados produz, entretanto, uma multiplicidade impressionante de políticas de segurança e enfoques das questões sociais. Diz o secretário Petreluzzi que tudo isso parece navio zarpando: faz seu percurso durante quatro anos e depois volta ao porto, para trocar toda a tripulação e começar tudo outra vez. É a falta de continuidade administrativa. Agora, ele já está pensando de outra forma: conseguiu atravessar metade da floresta. Mas um amigo o advertiu: Então, você não está entrando mais na floresta. Já está saindo dela.
Nossos grandes e médios centros urbanos refletem de maneira muito clara toda essa situação. Não se pode conviver normalmente com altos índices de homicídios, roubos, furtos, tráfico de drogas, bandidos por toda a parte. Há algo errado. Se esses tipos de crimes são mais velozes do que toda a estrutura da sociedade, e ainda se a polícia é quem fica com receio de bandido, e não o contrário, é evidente que a falha está nessa sociedade. Em outras palavras: definição de prioridades sociais, estrutura policial, judiciária e prisional e toda a construção do aparato das leis são prioridade ou desleixo da sociedade, da qual todos nós fazemos parte. Neste sentido, o ousado assalto no Rio é profundamente simbólico. A lição é penosa mas temos que aprendê-la. E bem depressa.





