A propósito do estafante episódio de Tocantins: os marmanjos da caçula das polícias militares precisam aprender uma nova voz de comando: além do clássico ‘‘meia-volta volver’’, fazer um curso intensivo com as mulheres de policiais do Paraná para aprender a conduzir as reivindicações. O que se viu em Tocantins foi profundamente lamentável.
Não se discute, não se sofisma que os salários atuais são aviltantes, que é impossível sobreviver sem atividade paralela (o chamado ‘‘bico’’), que os policiais merecem e devem ser tratados com muito mais dignidade. Isso é uma coisa. Outra é grevista armado, ameaçando fazer disparos, constrangendo familiares – mulheres, crianças – a ficarem aquartelados numa bravata pueril diante do cerco inevitável por tropas do Exército. É preciso saber como funcionam essas estruturas antes de dar palpites perigosos, lançar-se a aventuras inconsequentes e abrir espaço fértil para o exercício oportunista da demagogia.
Um dos pilares da corporação está centrado na hierarquia e disciplina. Ambas pulverizadas no Tocantins: os amotinados cercaram os jovens que estão há pouco tempo na corporação, obrigaram-nos a tirar as fardas (ficaram apenas de cuecas), puseram-nos para correr sob gritos e ameaças, repetindo a dose mais tarde com oficiais. Isso mesmo: um verdadeiro pega-pega contra oficiais, que tiveram que correr e esconder-se da soldadesca enfurecida. Aí, então, como a PM é reserva constitucional da Força Terrestre e a segurança pública obviamente estava em colapso, medidas urgentes de prevenção e contenção tiveram que ser tomadas. Sem entender nada de logística e operações militares, os rebeldes concentraram-se todos no 1º Batalhão, onde luz e água foram cortadas. Depois de doze dias, não houve alternativa senão a rendição. Capitularam, desolados.
Imagine-se morando numa cidade onde a polícia ostensiva sai das ruas, passando a usar suas armas para ameaçar os próprios colegas e infantilmente pretendendo enfrentar o Exército e usando os tradicionais slogans sobre iminência de ‘‘banho de sangue’’, que ‘‘vamos para o confronto’’, ‘‘vamos usar táticas suicidas’’ e assim por diante. Teria sido melhor contratarem as mulheres dos PMs do Paraná para saber como se faz as coisas – com coragem e determinação, no constrangimento de policiais fora da greve frente a frente com as esposas dos próprios companheiros, mas sobretudo com muito bom senso.
Não é a primeira vez que isso acontece na Polícia Militar. Precedentes lamentáveis tiveram como palco, exemplificando, os Estados do Mato Grosso, Minas Gerais, Ceará e Sergipe. No caso de Tocantins, tivemos paralelos hilários. A juíza da Infância e da Juventude da cidade, atendendo a uma solicitação do Ministério Público, determinou a retirada das crianças trancadas no 1º Batalhão. Escudos infantis também constrangem. Mas não é sensato usá-los. Chega a ser covarde. Os policiais não deram a mínima para essa decisão. O oficial de Justiça encarregado de cumpri-la foi humilhado.
A segurança pública entra na categoria dos serviços essenciais. A polícia não pode omitir-se e ponto final. Para que existem as entidades de classe? Se politicamente essas entidades estão se sobrepondo aos seus respectivos Comandos, essa é uma outra história. Certo que existem cabos-deputados com mais ascendência sobre a tropa do que muito coronel. As negociações finais, no Tocantins, foram mediadas pelo general Sérgio Mariano Cordeiro, comandante militar do Planalto. Os amotinados concentrados na cidade de Palmas ignoraram tudo o que os oficiais da PM local pediram. Quer dizer: praças desacatando o oficialato, oficialato incapaz de comandar subordinados. Em termos de estrutura da Polícia Militar, falência total. Disciplina militar enterrada.
A sociedade deseja uma polícia mais ajustada para enfrentar a criminalidade cada vez mais poderosa e triunfante. Se deseja isso, a sociedade também precisa aprender a reconhecer e remunerar. Mas as bravatas do Tocantins devem ser banidas. Não serviram a ninguém. As mulheres dos policiais militares do Paraná poderiam ser contratadas como professoras nos quartéis. ‘‘Meia-volta, volver’’, para a insensatez. ‘‘Em frente, marche’’, para o equilíbrio e valorização real dos homens e mulheres responsáveis por grande parte da segurança pública. No Tocantins, ficou muito difícil um olhar bem no olho do outro.

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