Encerra-se hoje, no Rio de Janeiro, a X Bienal Internacional do Livro, que reuniu 808 expositores, promoveu 1.200 lançamentos e ocupou uma área de 48 mil metros quadrados. A partir das 16 horas, terei a honra de ser o mediador do debate ‘‘A verdade a toda prova: o jornalismo investigativo’’, na companhia dos jornalistas-escritores Fernando Moraes, Lucas Figueiredo e Alessandro Porro. A convergência entre jornalismo e literatura também fará parte do debate.
Nesses tempos em que as relações e atitudes do Executivo, Legislativo e Judiciário seriam capazes de deixar Montesquieu arrepiado com sua teoria tripartite, a sociedade busca amparo na imprensa: sem ela denunciando, atenta, não permitindo que sujeiras acomodem-se sob tapetes, providências urgentes diante de fatos graves não são tomadas. Na Bienal do Livro, vou dizer que o esmero na elaboração do texto, ligando o jornalismo à literatura, é bem mais antigo do que alguns pensam. Upton Sinclair fez uma biografia extraordinária de Henry Ford, o pai do automóvel, nos anos 40. Daniel Defoe escreveu em 1.722 um relato impressionante sobre a cidade de Londres invadida pela peste negra, inspirando Albert Camus a escrever ‘‘A Peste’’ e ainda fez Gabriel Garcia Marquez apaixonar-se pela literatura. Truman Capote leu uma notícia árida de jornal, informando sobre o extermínio de uma família em Holcomb, Kansas. O escritor consagrado decidiu fazer uma investigação jornalística e nela investiu seis anos, escrevendo o clássico ‘‘A Sangue Frio’’. Também poderíamos falar sobre Ernest Hemingway, Jack London, John Reed, Tom Wolfe, Gay Talese... Infelizmente, as escolas de jornalismo não ensinam a História da Reportagem. Desde, naturalmente, que se entenda a reportagem como arte de reconstrução dos fatos.
Aqui, na Folha, você encontra matérias maiores, mais densas, com conteúdo, e um texto particularmente refinado na Folha2. São textos que pulverizam uma tese que circula por aí tentando demonstrar que ‘‘brasileiro não gosta de ler’’. Isso é falso. A verdade é que brasileiro não gosta de leitura de baixa qualidade. É completamente diferente. O New York Times publica reportagens enormes, lidas avidamente por gente que quer se manter bem informada. Bom tema para a Bienal do Livro. O jornalismo, contudo, tem que ser obrigatoriamente oportuno; a literatura pode abstrair-se do tempo. A velha guarda do jornalismo gostava de se debruçar sobre uma afirmação de Fraser Bond: ‘‘Não existe uma linha clara de demarcação entre o que chamamos de literatura ou jornalismo.’’ Ou seja: jornalismo e literatura podem se entrelaçar, o que era e continua sendo possível, desde - como ensinava o saudoso colega Marcos Faerman - que não se caia na derrapagem da ideologia ou no socialismo vulgar, fontes de empobrecimento de boa parte do jornalismo.
Capote saltou do texto sintético para a história da metodista família Clutter, reconstituindo o último dia da vida dessas quatro pessoas (pai, mãe, dois filhos). Uma incrível habilidade em armar a trama e envolver o leitor de forma pungente. Também assim Gay Talese, com seu imperdível ‘‘Aos olhos da multidão’’, conta suas histórias com talento incomum. Uma coisa é você ler que um grupo de operários está construindo uma ponte. E daí? Mas... e se você ler que eles ‘‘unem tudo, exceto as suas vidas’’? Faz uma enorme diferença! Como os capítulos ‘‘Homem’’ e ‘‘A Luta’’, de ‘‘Os Sertões’’, de Euclides da Cunha, são aulas ainda desperdiçadas por muitos repórteres. E para você, que está no Paraná e não no Rio de Janeiro, quero registrar ainda uma outra coisa que vou salientar hoje na Bienal Internacional do Livro: todo leitor, conscientemente ou não, gosta de ler de uma forma que possa entender claramente o que deseja saber e o que está acontecendo. Escreve bem quem satisfaz essa expectativa. De certa forma, é a arte de traduzir tudo o que se diz ou que se faz, em todos os setores da sociedade, de uma forma agradável, completa. O jornalista e o escritor têm, por dever de ofício, que se esmerar nesse trabalho. O leitor, sem dúvida, saberá reconhecê-lo. As pessoas querem saber mais e mais. Bobbio, o filósofo italiano, disse que o mundo não irá mais se dividir entre fracos ou fortes, ricos e pobres, mas entre os que sabem e os que não sabem. Se for mesmo assim, a educação terá que estar no centro de tudo: ler e saber, escrever sabendo contar, informação em não alienação. A agradável sinergia autor-leitor.

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