Percival de Souza
Está consumado: poupar energia ou cortes inevitáveis. Conheci um inédito Rio de Janeiro ao longo da semana, tendo como destaque apenas a estátua do Redentor iluminado. No dia seguinte, vi uma manchete de jornal: Só Cristo se salva. De volta a São Paulo, tomei conhecimento dos planos da polícia para enfrentar a escuridão, admitindo que este é um fator de estímulo à criminalidade.
Houve um curto-circuito na competência de gerenciamento da questão: depois que a porta foi arrombada é que saímos à busca de uma tranca. Escuro nunca foi símbolo de coisa boa. Que o digam aqueles homens acorrentados no breu da caverna filosoficamente criada pelo pensador grego Platão na República. Na Bíblia, conta-se a história de Nicodemus, o doutor fariseu, que foi encontrar-se com Jesus, prudentemente à noite, para não ser visto e não se comprometer.
Símbolo do poder do mal, a escuridão é diluída no apagão original com o Fiat lux divino. Escuro carrega o componente adicional do medo. O governo federal anunciou no ano passado o Plano Nacional de Segurança Pública. Um dos itens principais desse plano era justamente o investimento em iluminação de áreas públicas para conter a criminalidade. Chamava-se Reluz. Agora, quando muitas das cidades brasileiras sofrerão redução da iluminação até nos postes das ruas, podemos perceber - pelo anúncio do próprio governo, em outras circunstâncias - que de fato existem razões para preocupação.
Nessas horas, as autoridades preferem fazer de conta que não é bem assim. Mas é assim mesmo. Simplesmente porque todos os picos de criminalidade acontecem no período noturno, com destaque principalmente para os crimes contra a pessoa - os homicídios, tentativas de matar e lesões corporais - e contra o patrimônio, roubos e furtos. Usamos cotidianamente expressões que corroboram essa situação. Quando um caso grave acontece ainda sob a luz do sol, comentamos indignados que o crime foi praticado em plena luz do dia. Após o crepúsculo, dizemos sempre com espanto que determinado ato foi praticado na calada da noite.
Assaltantes que agem em grandes centros urbanos cultivam o estranho hábito de se despir, à noite, para deixar embaraçados os cães que fazem a segurança das casas. Acham que os cachorros ficam encabulados, cheiram, cheiram e deixam para lá. Não existe rigor científico nesse mundo dos odores, mas o outro lado da sociedade investe na própria nudez para resistir às mordidas e não ser castigada. Assim pensou, por exemplo, o médico-prisioneiro Hosmany Ramos, o homem que trocou a especialização em cirurgia plástica (era o segundo do Brasil, perdendo apenas para Ivo Pitanguy) para dedicar-se a pisar em páginas do Código Penal. Fascinou-se pelo mundo do crime.
Hosmany fez muita coisa na prisão - inclusive escrever, lança nesta semana mais uma obra na Bienal Internacional do Livro - menos submeter-se a exames psiquiátricos. Acho que seria o caso, desde que esta área do saber cumpra o seu papel de encontrar, ou pelo menos pretender encontrar, as mais variadas explicações e esclarecimentos. Nunca consegui entender a cabeça de Hosmany: sensível, culto, competente e criminoso. O nosso discípulo de Hipócrates fez um plano, que considerava infalível, de escapar das grades da Penitenciária da capital, em São Paulo, fama de inexpugnável conjugada com a arquitetura de Ramos de Azevedo: construiu andaimes, pendurados em cordas, equilibrando-se por uma parede lateral, próxima a um dos muros.
O sonho da liberdade tinha um ingrediente para burlar a escuridão: o médico Hosmany ficou nu, pintou o corpo todo de preto. Imaginou que, assim, ficaria invisível na noite da fuga. Mas o Papillon dos trópicos desiquilibrou-se e caiu. Na queda livre, teve braços fraturados, fêmur afetado, costelas atingidas. Amargou longos tempos no hospital.
Eu tenho que buscar palavras para traduzir preocupações coletivas. Quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma, ensina Fernando Pessoa. As autoridades devem buscar ações concretas. Se o grande conselho for apenas evitar estar na rua à noite, preparemo-nos para os toques de recolher. Afinal, nem todos são equipados com a garra e a determinação mostradas dias atrás pelas mulheres dos policiais militares, quando chegou a hora de defender, perante o Comando paranaense e a sociedade, a dignidade de suas famílias.





