Percival de Souza
Na semana em que o vulcão chamado Senado Federal continuou em erupção, um contraponto com o escândalo da violação do painel de votação foi estabelecido com a prisão do traficante Luiz Fernando da Costa, tratado intimamente como Fernandinho Beira-Mar. É a isonomia do podre. Não mais banda. Agora, orquestra - com direito a trombone de ACM, interpretação dramática de Arruda, sapos e rãs para Jader e opereta-bufa para Josias.
Aos fatos: primeiro, a importância vital que adquire o chamado olhar de fora. Sim, porque se não fosse a ex-diretora do Prodasen Regina Borges revelar minuciosamente tudo o que havia acontecido, os podres não teriam vindo à tona, apesar do odor nauseabundo. Segundo, entre o assumido Beira-Mar e os cândidos do Planalto, fica estabelecida uma dolosa simetria.
Aqui entra o samba do crioulo doido: entre Beira-Mar, gângster assumido, e farsantes que se locupletam, existe algum tipo de diferença moral? Os personagens que foram e são alguns dos mais poderosos do Senado poderiam dar algum conselho a Fernandinho? A propósito, o secretário da Segurança do Rio de Janeiro, Josias Quintal, foi por conta própria à Colômbia e anunciou a existência de uma lista de gente muito importante ligada ao narcotráfico. Teria obtido isso através de uma conversa privada com o traficante. Entretanto, tal lista não existe em termos formais, conforme assegura a Polícia Federal. Josias vai ter que se explicar na próxima quarta-feira na Assembléia Legislativa do Rio. Esclarecidos esses detalhes, raciocinemos:
1-) Os comportamentos desviantes, que conduzem ao crime, manifestam-se intensamente em todas as classes sociais. Imagine o efeito deletério de tudo o que você acaba de recordar com a reação da sociedade. Estão querendo dizer, no Brasil, que para alguns tudo é lícito, tudo é permitido. Sinal de que podemos ir agora ao Carandiru e tranquilamente trocar muitos reclusos por gente que ainda está do lado de fora. Lá dentro, as coisas são razoavelmente assumidas, até pela falta de alternativas, enquanto os fora-das-grades tentam dissimular.
2-) Justiça, aplicação da lei, deve ser para todos. Com exceções cada vez mais raras, rico só vai para a cadeia em dia de visita. Nesta semana, Antonio Carlos Biscaia - ex-procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro e coordenador do Projeto Segurança Pública do Instituto Cidadania - esclareceu alguns pontos no exame dessa questão durante seminário específico. Ata do evento revela que a prefeita dos paulistanos, Marta Suplicy, disse: Talvez por ter sido, nos períodos autoritários e ditatoriais, vítima das ações dos órgãos de segurança pública, a esquerda brasileira tenha relegado o tema da segurança pública, considerando-o assunto das elites dominantes. O prejuízo político desse distanciamento do tema segurança pública consiste no pouco acúmulo que as forças progressistas e populares têm sobre a questão. Biscaia argumenta: Não se pode perder de vista que a violência e a criminalidade acossam muito mais a mulher trabalhadora que acorda às quatro da madrugada, em Nova Iguaçu, para chegar às 7 horas no seu trabalho, no centro da cidade, e que é estuprada, indefesa, às margens da linha do trem. E ainda aquele trabalhador humilde, evidentemente sem conta bancária, que volta para casa no final do mês com seu minguado e suado salário mínimo, o que lhe é estupidamente roubado dentro de um coletivo qualquer. Esta, a síntese do que concretamente preocupa os brasileiros, que sofrem com a violência e o crime, estarrecidos diante de tanta incompetência e tanta teoria dissociada da realidade. O que nos impede de ver essas cenas?
Por tudo isso, é muito salutar um olhar tipo Regina Borges, um olhar de fora, neutro, que se mostra asséptico no Senado. Nesta semana em que Anthony Garotinho quis faturar a prisão de Beira-Mar, com a qual nada teve a ver, a Justiça do Rio - 17ª Câmara Cível - condenou o governo do Estado a indenizar com cem salários mínimos um cidadão que teve a casa arrombada por assaltantes. Segurança é dever do Estado, fulminou o Judiciário. O governo estadual havia argumentado que o roubo na casa não passava de um risco administrativo. A decisão, inédita, abre um grande precedente. Não vamos exagerar e pedir para Regina rogar por nós. Mas que esse negócio de acreditar que só gente por dentro de certos assuntos poderia resolvê-los....não funciona. Pelo menos com a ética brasileira.





