Nem só as balas se perdem. As notícias também: às vezes, contidas num pequeno canto, ou sufocadas por outras que mereceram um espaço melhor, parecem ocultas no deserto, solitárias, clamando para serem lidas. Mesmo assim, são as que dizem tudo sobre determinados temas. Como a nossa reflexão deste domingo que precede a Páscoa.
Alexandre Chalfun tinha 25 anos de idade, acabara de se formar em engenharia, trabalhava numa grande construtora no Rio de Janeiro, iria cursar uma pós-graduação nos Estados e foi visitar os pais em Belo Horizonte. À saída de um restaurante, na última quinta-feira, foi abordado por dois homens que queriam o painel desmontado do toca-fitas oculto sob o banco do seu carro. Ficou nervoso, demorou alguns segundos para encontrar o objeto desejado e por causa disso tomou um tiro no peito. Morreu em minutos.
Como já faz parte do cotidiano, essa foi mais uma notícia perdida. Na maioria dos meios de comunicação, nem notícia foi. Afinal, casos assim acontecem todos os dias, vamos nos habituando, achando que é assim mesmo. Alguns dizem que quando chega a hora, não tem jeito mesmo.
Negativo. Acreditar que tudo é predeterminado, jogando desgraças sobre atitudes de conformismo e até mesmo de crenças, nada tem a ver com casos assim. Muita morte poderia ser evitada. Muita coisa não precisaria acontecer. A morte do jovem Alexandre foi uma delas. Consumada a tragédia, não se pensa mais em nada. A vida brutalmente ceifada, a dor e a amargura dos pais e parentes, ferida impassível diante de qualquer remédio ou bisturi marcam essas histórias incorporadas ao cotidiano. Alexandre foi assassinado. Latrocínio. Um a mais na estatística. É duro, mas... causa mortis: o aparelho toca-fitas, um inciso na implacável lei pela qual o consumo virou ideologia mortífera.
Segundo a Síntese dos Indicadores Sociais, divulgada pelo Instituto Brasileiro e Geografia e Estatística, é a violência a principal causa de morte de jovens em todo o Brasil ao longo dos anos noventa. Seria bom imaginar, no caso de Alexandre, o quanto ele representaria para nosso País em termos de contribuição profissional, força de trabalho, toda essa potencialidade interrompida pelo brutal fim antes do fim. Nas contas do IBGE, apontando as mortes como ‘‘causas externas’’, o dado mostra que só em 1998 o total de óbitos de pessoas entre 15 e 19 anos de idade, provocados por causas violentas, aumentou para 68%. Em 1992, o registro estava em 63%. ‘‘O indicador que mais piorou na década’’, sintetiza o presidente do IBGE, Sérgio Besserman.
As causas externas referem-se a homicídios, suicídios e acidentes de trânsito. O maior índice (73%) ficou com a região sudeste. A pesquisa se baseou nos dados obtidos entre 100 mil domicílios, atingindo cerca de 400 mil pessoas. Segundo avaliação do chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, a mola propulsora de tudo isso é a concentração de renda. ‘‘A desigualdade explica grande parte dos crimes, mais do que a pobreza.’’ Os indicadores da violência abordam o que mais piorou no Brasil na década de noventa.
Ao longo da pesquisa, dados paralelos: o eixo São Paulo-Rio de Janeiro registra 46 homicídios para cada grupo de 100 mil pessoas, o que corresponde a cinco vezes mais do que Nova York. Polícia quer dizer 280 agentes da lei, contra 320 nos Estados Unidos, para cada 100 mil habitantes. As estatísticas são frias. A tinta vermelha, em alguns casos, poderia ajudar a entender a verdadeira dimensão dos fatos. Os dados do IBGE, somados ao que estou chamando de notícia perdida, procedente de Minas Gerais, mas que poderia nos chegar de qualquer ponto do País, mostram um retrato incômodo do Brasil. Portanto, estamos precisando examinar esse coleta de dados com olhos agudos. Os dados querem dizer que o jovem está sendo o epicentro das consequências cada vez mais dramáticas das injustiças sociais em nosso País. Se faltam oportunidades, uma chance, uma maneira de dizer eu existo!, falta de educação e escassos empregos podem causar, como estão causando, uma série de situações que canalizam inevitavelmente para a violência. Velocidade, drogas, agressividade, individualismo solitário, perspectivas sombrias ou duvidosas, agressividade como estilo de vida são alguns dos sintomas que podem nos ajudar a entender a apavorante conclusão do IBGE. Se não rompermos os indiferentes corações de pedra para ir ao âmago da questão, pelo menos temos que ver que o saldo dessa síndrome coletiva de Caim ameaça a todos.

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