Foi sinistro e aconteceu na Penitenciária de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, cidade considerada uma Califórnia e, agora, capital da carnificina: durante uma rebelião, presos tiveram as cabeças decepadas, olhos vazados, mãos cortadas. O coração de um deles foi arrancado e comido por um bando, que se serviu também de aguardente. Canibalismo puro, degradante, chocante, inumano.
Desculpe pelo assunto indigesto. Mas é inevitável, se pretendermos conseguir alguma coisa com o nosso modelo de prisão – assunto que será debatido amanhã, durante todo o dia, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), em seminário que vai reunir vários especialistas. Fui convidado para falar sobre ‘‘Nível superior, nível inferior’’, mostrando as desigualdades brasileiras também no sistema carcerário, onde a formação de terceiro grau confere um status automaticamente superior sobre a massa de origem obscura – a mesma capaz de trucidar e comportar-se como canibal. Como transformar coração de ser humano em coração de frango e continuar tocando a vida? Como se nada de mais tivesse acontecido?
Na Ilíada, Homero diz que ‘‘Quanto ao perverso/Nem mesmo todo o oceano/Lavaria as culpas que lhe vão na alma’’. O episódio de Ribeirão Preto – cidade conhecida mais pela fama de um chope do que pela matança cruel –, pode também evocar Nietzche (‘‘Para além do bem e do mal’’) e um raciocínio ajustável aos fatos: ‘‘Fui eu quem fez isto’’, diz minha memória. ‘‘É impossível que o tenha feito’’, diz meu orgulho, e fica irredutível. ‘‘Afinal, é a memória quem cede.’’ Faço as citações para você refletir um pouco neste domingo, apesar da motivação macabra do início. Mas também não anda fácil a compreensão pelas autoridades constituídas. Tivemos exemplo disso em São Paulo, onde mais de três dezenas de prefeituras se fizeram representar, em Fórum Metropolitano, para discutir fórmulas efetivamente preventivas, como a participação municipal em programas que contribuam para diminuir índices de criminalidade.
Oportuno lembrar que o famoso programa Tolerância Zero, de Nova York, deu certo porque aliaram-se ação policial eficiente e simultânea implantação de políticas públicas. Mais: nos Estados Unidos, o comando da Polícia é municipal e facilita as coisas. Quando o pai desse programa (William Bratton) esteve em São Paulo, passei quase uma hora tentando explicar para ele que temos polícias com dualidade de comando civil e militar e ainda de quebra a guarda municipal. Ele não conseguiu entender.
O programa de Nova York prova que as políticas públicas são absolutamente indispensáveis para matar focos de criminalidade no nascedouro. Nem tudo se resolve só com polícia. Mas ela tem que fazer a sua parte. Os que falam em ações sociais também precisam engajar-se, mostrando coerência entre discurso e participação concreta. Estamos cheios dos discursos vazios.
Pois bem: estavam reunidos prefeitos e governador, quando Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) esqueceram-se de que eram respectivamente prefeita e governador e passaram a trocar farpas sobre o que uma e outro poderiam fazer para melhorar o policiamento no centro da cidade. Preocupação com a segurança pública? Não, preocupação com o futuro político, pois ambos preparam-se para a disputa eleitoral de 2002. Incrível como é difícil pensar em interesse público acima de siglas e partidos. Um parecia querer comer o fígado do outro. Metáfora para o coração da Penitenciária de Ribeirão Preto?
Se olharmos como meros espectadores para tudo isso, acabaremos nos perguntando: que tipo de sociedade estamos construindo? Se ela está repleta de fatores criminógenos, é preciso unir muitos esforços para debelá-los. Estamos podendo sentir e nos assustar no cotidiano com o resultado dessa marcha para trás. Se perseguirmos a esperança, precisamos criar ou fortalecer os mecanismos que nos ajudem na luta para salvar a humanidade desse sufoco da violência cada vez mais insana. O modo como certos políticos costumam se comportar pode nos ajudar. Não podemos aceitar. A ação dos presos violentos, também. Não podemos tolerar. É de arrepiar a constatação mas somos farinha do mesmo saco, isto é, tivemos a mesma origem que, paulatinamente, foi modelando, através das mais variadas circunstâncias, a nossa personalidade. Chocante, porém... os devoradores de coração não vieram de outro planeta. São terráqueos mesmo. Canibal não é só filme sobre o psicopata Hannibal Lecter.

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