Mário Covas partiu para outra dimensão, deixou um legado, a raça humana desfilou pelo Instituto do Coração de São Paulo, onde o governador dos paulistas passou seus últimos dias de vida, e entrou para a História como um daqueles que viveram na pele o chumbo derretido da ditadura militar e batalharam pela democracia.
Mas, nesses tempos de quase canonização, emocional e sentimentalmente compreensíveis, é bom lembrar que numa área – a da segurança, no mais amplo dos sentidos – ele não agradou. Vamos ver o porquê. Violência, criminalidade, presídios, polícia, menores infratores fazem parte desse imenso caldeirão, onde as responsabilidades devem ser divididas e não concentradas. Dizia o sábio chinês que quando a carroça está muito pesada não se deve bater no burro mas aliviar-se a carga. Para quem foi cassado e caçado, não era psicologicamente fácil conviver com a engrenagem policial. Preferiu, assim, delegar plenos poderes para o secretário da Segurança, um professor de direito aposentado aos 70 anos de idade na Universidade de São Paulo. O homem tinha uma visão de constitucionalista ortodoxo. A polícia não podia prender ninguém – isto é, fazer vistorias em veículos, organizar bloqueios, causar incômodos procurando armas e drogas. O efeito dessa postura foi devastador. Os bandidos possuem um faro, uma espécie de sexto sentido para detectar situações assim. Percebem muito bem quando se vacila, quando se titubeia, quando se retrai – e no vácuo partem para o ataque. Os índices criminais passaram a atingir cifras incontroláveis.
Registre-se, aqui, que este preço foi pago pelo fato de Mário Covas conceder poder total para o titular da pasta da Segurança e não querer ser importunado sobre tal assunto. As pedras continuaram rolando: a Tropa de Choque da PM foi considerada maldita. Até que chegou o dia lamentável da Favela Naval, onde um grupo de PMs espancou um monte de gente e matou um homem durante estúpida barreira policial. Resolveu-se trocar o comandante da PM. Foram buscar o novo comandante, inacreditavelmente, na Tropa de Choque! Depois, para salvar as aparências, o secretário induziu o governador a apresentar uma proposta de reforma constitucional para extinção sumária da Polícia Militar. Tudo isso quer dizer que não se aprendeu, ainda, a fazer segurança nos moldes institucionais em que vivemos.
Além do professor de direito, Covas colocou toda a confiança numa assistente social para cuidar de menores. A Febem virou o caos em que se sepultaram teses e mais teses. Covas precisou ir pessoalmente lá por causa de uma sucessão de rebeliões. Nos últimos 15 meses, a Febem trocou cinco vezes de presidente. Não adiantou até agora.
Para os presídios, o governador escolheu um secretário que numa pacata cidade do interior paulista dirigiu uma cadeia com 60 presos, organizando um simpático grupo de teatro. Mas entre isso e dirigir um sistema com mais de 70 mil presos há uma enorme diferença – como se vê nas rebeliões de cada dia e na existência de organizações criminosas impondo regras e normas. Moral da história: não bastam as boas intenções. É preciso conhecer, saber administrar, tomar decisões, não ser seduzido pela ingenuidade e saber que segurança pública tem um enorme espectro. Também é preciso aplicar na mais concreta dimensão – pés no chão – todo o conhecimento adquirido. Além de pensar, fazer. Covas escolhia para as missões nevrálgicas pessoas amigas. Sabia que em alguns casos precisaria mudá-las. Só muito achegados sabiam do dilema numa hora dessas, quando Covas desabafava: ‘‘O duro não é nomear, mas exonerar.’’
Exatamente por isso podemos entender o que ele queria dizer ao se considerar culpado por qualquer coisa de errado. Ele assumia, coisa que seus auxiliares diretos nem sempre faziam. Este é um dos legados de Mário Covas – que merece de nós muita reflexão. Porque, segundo Jean Cocteau: ‘‘Cerram-se os olhos dos mortos com doçura. É com doçura que se devem abrir os olhos dos que vivem.’’

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