Percival de Souza
A situação só vai melhorar em São Paulo quando sequestrarem um senador, costuma bradar o radialista Paulo Lopes, pelos microfones da Rádio Globo. Na última quinta-feira, em vez de senador, bandidos tocaiaram o secretário municipal da Saúde Eduardo Jorge, enfiaram-no dentro do porta-malas do carro oficial da Prefeitura e roubaram tudo o que puderam. A agonia de Eduardo durou duas horas. O médico sanitarista havia sido agarrado assim pela repressão política, durante os anos de chumbo que caracterizaram a ditadura militar. Você se sente fora da civilização, comentou ele.
A aventura do secretário da administração Marta Suplicy vem de encontro ao que ele mesmo havia analisado, no mês passado, em relação aos avanços da globalização. Comparando manifestações feitas na suíça Davos e na gaúcha Porto Alegre como retorno triunfal da luta de classes, com estados imperiais de um lado e exército de organizações não governamentais de outro, o médico entendeu que esse dilema é crucial, pois absolutamente nenhum dos grandes e verdadeiros problemas da humanidade pode ser resolvido por um povo, uma nação, um Estado ou governo.
As palavras de Jorge, antes e depois do cativeiro no porta-malas soaram de forma profética, palavra que aqui podemos interpretar como ciência política - isso mesmo, os profetas do passado foram os cientistas políticos do presente. Porque a aventura do secretário municipal coincidiu com as escaramuças entre o desastrado ministro José Gregori, da Justiça, e o Poder Judiciário, Ordem dos Advogados do Brasil e a classe política. Gregori lançou sobre as três categorias a acusação de não colaborarem com o Plano Nacional de Segurança Pública, que já nasceu no limbo. Houve reação e até o Palácio do Planalto preferiu desqualificar as colocações de seu ministro de Estado. Ao mesmo tempo, a prefeita paulista reunia empresários fortes, como os presidentes do Grupo Votorantim e Conselho de Administração do Bradesco, Grupo Bardela, Editora Abril, Federação das Indústrias e vários outros. Em suma, foram conversar com a prefeita paulistana doze dos maiores empresários brasileiros. Eles ouviram o pedido de fazer doações para projetos que podem beneficiar crianças e adolescentes.
Um desinformado poderia pensar: o que tem a ver isso com política de segurança? A resposta é simples: tudo. O vínculo criança-adolescente com o crime é umbilical, quando meninos e jovens vivem ao abandono, tendo contatos e relações promíscuas, entrando numa espécie de fábrica da delinquência que funciona a todo vapor. O entendimento, ao invés da luta de classes, recebe uma lição exemplar: a participação da sociedade, como um todo, na solução de seus problemas cruciais. Uma união fundamental numa cidade sucateada como São Paulo, pagando o altíssimo preço de uma desastrosa administração anterior, quando Executivo e considerável parte do Legislativo Municipal se reuniram, como associação criminosa, transformando coisa pública em cosa nostra.
Sociedade ensina, administrador precisa aprender: a questão do crime não se resolve apenas com Polícia. Claro que precisamos de uma boa Polícia, mas não é ela que tem de tomar providências para que os mal-aventurados de hoje sejam os criminosos de amanhã. Para evitar isso, precisamos de políticas públicas adequadas, interesse, solidariedade, atenção para o bem comum, prefeitura e governo do Estado trabalhando em parcerias e não promover ferozes competições políticas. União, enfim. Só assim a mesma sociedade perceberá que quem investe mais em escola constrói menos cadeias; que a explosão criminal obedece sempre a um script escrito com anos de antecedência. Nesse sentido, acende-se uma luz em São Paulo, capaz de iluminar o final dos túneis em todos os municípios de nosso País. Se tudo der certo, os paulistanos estarão dando aula de cidadania e honrando o brasão do município, onde se lê non ducor, duco. Não sou conduzido, conduzo





