Fantástica a história acontecida na cidade de Maringá, onde um médico, para vingar-se de um colega que o submetia a procedimentos regulares no Conselho Regional de Medicina, por infrações éticas, planejou o sequestro da filha de 17 anos do desafeto, que ficou amarrada a uma árvore enquanto era negociado o valor do resgate exigido, US$ 150 mil.
O intrigante é o fato de o principal personagem deste caso ser um médico, de quem - em tese - jamais se poderia esperar um comportamento criminoso desse tipo. Não só pelo fato de ter feito o juramento de Hipócrates, mas também por ser um profissional de saúde, dedicado profissionalmente a salvar vidas, e não a ameaçá-las ou colocá-las em grande risco. Mas o geriatra Décio Basso, 42 anos, jogou na vala comum conceitos de moral, ética, dignidade e caráter. Uma atitude de vingança contra outro médico, o pediatra Kemmel Jorge Chammas. Não existe a menor possibilidade de engano ou precipitação, já que Basso foi, além de mentor intelectual do plano, o autor de telefonema à família da vítima. Preso, alegou estar agindo assim para forçar o pagamento de uma dívida. Disse isso porque não tinha mais o que dizer para justificar o absolutamente injustificável.
O episódio mostra como a criminalidade, com acentuados contornos de surto endêmico, alastra-se por todas as camadas da sociedade. As gerações antigas sempre imaginavam o criminoso como alguém mal-encarado, mal vestido, inspirando temor pela simples aparência. Lombroso também pensou assim, no final do século retrasado, e embora tenha morrido em 1909 muitas de suas teorias permaneceram de pé. Ou seja: o olhar, a fronte, as orelhas, detalhes do rosto serviriam para compor características humanas que traçariam automaticamente o perfil do criminoso. Essas idéias, parecidas com o café, segundo o criminologista Gabriel Tarde ‘‘excitaram a todos mas não nutriram a ninguém’’ atravessaram boa parte do século XX. O legista Nina Rodrigues tentou, sem êxito, fazer um trabalho com a cabeça de Antonio Conselheiro, o líder dos mal-aventurados de Canudos (imaginava-o louco), saga maravilhosamente descrita por Euclides da Cunha.
O sepultamento das idéias de Lombroso: o médico Basso, por exemplo, tinha tudo para, como tantos, ser considerado um cidadão acima de qualquer suspeita. Em sã consciência, quem poderia imaginá-lo em condições de fazer o que fez? Se até o doutor é capaz de tal comportamento, não é difícil de se imaginar o que se passa em certas cabeças, na verdade à espera de uma gota d’água, de uma oportunidade, de uma chance de obter êxito numa empreitada agindo às ocultas, nas sombras, apostando que nunca será descoberto.
Aliás, não é caso único entre os homens que costumam vestir-se de branco. Temos recentemente o caso do estudante de medicina na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, que entrou num cinema de shopping dando tiros para todos os lados, matando e ferindo. Há muitos anos, ainda em São Paulo, um médico que amava platonicamente uma moça matou-a no altar da igreja de Santa Terezinha, em pleno momento do casamento. Conheci-o no manicômio, ironicamente tratado por um médico que era seu contemporâneo de faculdade. Na cidade de Sorocaba, um médico fez um seguro de vida para sua empregada doméstica sozinha no mundo e depois envenenou-a para receber o dinheiro. Está preso. O famoso Hosmany Ramos, que tinha tudo para ser o segundo cirurgião plástico brasileiro, perdendo apenas para o doutor Pitanguy, meteu-se em enrascadas relacionadas a drogas, roubos e mortes e amarga no cárcere os aparentemente incompreensíveis desvios de conduta. Aliás, Hosmany é também um bom escritor, tendo recentemente um de seus livrros traduzidos por uma importante editora da Europa. São casos e casos, mas mesmo assim não generalizemos: estamos falando de alguns casos específicos de uma classe que possui abnegados e sacerdotes, que exercem suas atividades como o empenho ético que o pai da medicina tanto buscava, desde os seus experimentos com aromáticos na Ilha de Cós.
O ponto é outro. Como já disse Rui Barbosa, o águia de Haia, alguns plantam a couve para o prato de amanhã e outros a semente do carvalho para o abrigo eterno. O pessoal da couve prefere cavar para si mesmo. A elite moral e ética do carvalho lavra para seu país, para felicidade de seus descendentes, para o benefício do gênero humano. Portanto, se tivermos o cuidado de olhar o mapa criminal nele veremos incrustadas pessoas de todos os tipos e profissões, adolescentes, jovens e adultos, homens e mulheres, assalariados e liberais. Surpresas e impactos, como policiais militares envolvidos diretamente no recente roubo-farsa em quartel do Comando de Policiamento de Área da zona sul de São Paulo. Claro, para a sociedade, os indícios cada vez mais fortes de uma deterioração ética e moral, da lógica dos fins justificando os meios, do mais forte esmagando o mais fraco.
Cidadania é uma palavra que adquire conotação cada vez mais forte. Se todos são capazes de tudo, se bandido não tem mais biotipo de Al Capone, Scarface ou Fernandinho Beira Mar, e se o crime vai se disseminando por todas as categorias sociais, é preciso organização da mesma sociedade para início do projeto de reconstrução da própria humanidade. ‘‘Não há que desesperar da sorte do bem’’, disse ainda o nosso jurista-mor. Porque, segundo Rui Barbosa, a injustiça é precária e a verdade é eterna. Por fim, o detalhe do alvo errado: a menina Marta, filha de Chammas, foi vista com desequilíbrio total. Atingindo-a, Basso pretendia ferir o pai. Da terrível lição, aprendamos todos neste caso que nos permite olhar a sociedade por uma espécie de buraco na fechadura.

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