Percival de Souza
O Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), e o Fórum Social Mundial, na brasileira Porto Alegre, dividem as atenções sobre o futuro da humanidade em relação à economia e desdobramentos consequentes. Entre um e outro, enfrentam-se as posições antagônicas, tendo como alvos a globalização e a política neoliberal. Para alguns, Davos seria Satã e Porto Alegre, uma concentração da resistência formada por anjos e arcanjos.
O leitor terá, naturalmente, o seu ponto de vista e a questão econômica não será discutida aqui. Talvez os economistas sejam como os dermatologistas: não curam mas também não matam... Mas esta é uma outra história. Vejamos o que tudo isso, com visões políticas e ideológicas diferentes, pode resultar em termos de criminalidade e violência.
Segundo o secretário municipal de Saúde de São Paulo, o médico sanitarista Eduardo Jorge, nenhum dos grandes e verdadeiros problemas da humanidade, das outras espécies e do meio ambiente pode ser resolvido por uma nação, um povo, um Estado ou um governo. Esse raciocínio, insiste, vale para a escalada do abuso de drogas, para a criminalidade internacional, para o combate às epidemias, para as agressões ao meio ambiente, para as migrações empurradas pela miséria e pela fome, para as guerras crônicas entre fundamentalistas de diversas origens. A saída, diz Eduardo Jorge, seria uma federação democrática de nações, uma espécie de Terceira Internacional, em contraponto Internacional Capitalista, de Davos, e a Internacional Socialista, de Porto Alegre.
É incrível como nessa discussão se repetem clichês, fórmulas feitas e surgem respostas para perguntas que nem foram ainda formuladas. No campo do crime e da violência, onde o comportamento humano é capaz de coisas aparentemente inacreditáveis, recomenda-se neste início de milênio uma análise cuidadosa, realista, despida de preconceiros, o que nem sempre é fácil nesses tempos em que ainda se insiste em brigar com os fatos e dividir o mundo apenas entre mocinhos e bandidos.
O sociólogo Alain Touraine, olhos voltados para a exclusão e marginalidade, pergunta-se: existe mesmo, de um lado a boa sociedade, as pessoas respeitáveis, e do outro o carco empreendido por alcatéias de lobos agressivos, mas ao mesmo tempo prontos a se deixar domesticar em troca de um pouco de comida? Essa pergunta está formulada por Touraine no prefácio que ele fez para o livro Violência e Democracia - Paradoxo Brasileiro, de Angelina Peralva, Editora Paz e Terra.
Diz ele: a resposta é clara: não.
O sociólogo refuta a explicação óbvia e explica por que: imagens como essa (respostas condicionadas) resistem ao tempo porque são a maneira como as pessoas de dentro - categoria que exclui por si mesma qualquer análise crítica - vêem as pessoas de fora. Segundo o sociólogo, tal ficção tem como oposto simétrico a idéia de que o sentido das coisas pertence aos de fora, aos proletários excluídos ou aos nacionalistas revolucionários, por exemplo.
Touraine assegura que essa segunda imagem não vem do povo mas sim de intelectuais orgânicos, que pretendem legitimar a sua própria tomada de poder e o terror, em nome de uma liberação violenta das fortalezas e ideologias do passado.
Para o sociólogo, a unidade artificial atribuída à violência pela referência às condutas desviantes contradiz um argumento forte: Nem todos os jovens das periferias urbanas francesas, e do mesmo modo nem todos os habitantes dos morros do Rio de Janeiro se tornam delinquentes ou traficantes.
Numa exposição de planos econômicos do Governo aos congressistas, no ano passado, o presidente da República interrompeu seu ministro da Fazenda para pedir que ele falasse em português. Quer dizer: ele queria que todos entendessem claramente tudo o que ele estava dizendo. Em Davos ou Porto Alegre, comunicar o que se considera o interesse maior é o desafio. Na soma de tudo, fica a impressão de que a humanidade entra no século XXI correndo sérios riscos, e que precisa encontrar a fórmula para dar a ela mesma uma oportunidade de sobrevivência no nosso planeta de 4 bilhões de indigentes, 1 bilhão que sobrevivem e 700 milhões sabendo o que é bem-bom.





