Se a Polícia fosse uma empresa que medisse resultados – investimentos, produção, lucros, prejuízo – em termos pragmaticamente empresariais (que exigem mudança de curso, punição e demissão de funcionários inaptos ou desqualificados), talvez o século XXI não estivesse exigindo, como está, uma reformulação de práticas e conceitos.
Comecemos pelos crimes de autoria desconhecida, que exigem investigação para serem elucidados. Nos países de primeiro mundo, existe uma média positiva de 75%. É considerada alta para os nossos padrões, mas mesmo assim o nada desprezível percentual de 25% que forma a galeria dos insolúveis é motivo de preocupação. Voltemos ao terceiro mundo.
Por aqui, prosseguindo no eixo Rio-SP, por causa dos marimbondos de fogo prisionais do domingo passado, descobrir os autores de crimes é algo que provoca uma estatística de assustar. No Rio, ao longo dos últimos três anos, a Polícia Civil remeteu a juízo 136.895 inquéritos criminais, dos quais 74.132 – ou seja, mais da metade – não especificavam quais eram os autores. Segundo o ex-coordenador de Segurança Luiz Eduardo Soares, que hoje vive em Nova York, o êxito em tais investigações não estaria passando de míseros 7,8%. É verdade que essa estatística é de 1992, mas como não existe outra disponível, ela acaba servindo como parâmetro. Se bem que em novembro último o governador Anthony Garotinho exonerou do cargo o chefe da Polícia Civil, Rafik Louzada, quando ele admitiu que a cifra dos insolúveis chegava a 86%, no caso específico dos homicídios. Num lugar onde se mata demais, o dado é pífio: duas pessoas a cada três horas estão sendo assassinadas no Rio de Janeiro.
Em São Paulo, a carnificina é ainda maior. além das chacinas, os tais homicídios múltiplos, como são catalogados nas ocorrências policiais, conduzem à média diária de vinte mortes, que sobe nos finais de semana para 50. A Polícia censegue êxito em menos da metade dos casos. Uma legião de assassinos anda às soltas pelas ruas. Além de impune, sequer identificada.
São fatos que demonstram, de maneira insofismável, que a metodologia de investigação precisa mudar para melhor. E muito.
Além da violência em grau máximo, que é o homicídio, temos os roubos à mão armada, por sua vez geradores de latrocínios. Aqui entra um componente social da passagem de milênio. Até o início dos anos setenta do século que se foi, infratores e criminosos eram conhecidos pelos nomes porque agiam individualmente. Tempos de Gino Meneguetti, o ladrão que andava pelos telhados e não feria ninguém, em São Paulo. Tempos de Cara de Cavalo , o matador do detetive Milton Le Cocq, no Rio de Janeiro. Com exceções poucas, tipo Maníaco do Parque e Bandido da Luz Vermelha , os criminosos individualizados do passado transformaram-se nas quadrilhas e bandos do presente. Ou seja: a violência diluída por vários e não concentrada em apenas um. Com uma característica adicional: no passado, as ações que exigiam destreza, habilidade, característica particular de certo tipo de ladrão. Hoje, o assalto, a arma ameaçadora, os tiros.
Na sociologia do crime, os infratores do Código Penal são mutantes. Agem de acordo com o momento – observam, espreitam, planejam, improvisam e não consideram nada inexpugnável. Desde os carros fortes até os caixas eletrônicos. A rigor, os criminosos são mais determinados. ‘‘Estão dando mais duro do que nós’’, disse-me em Nova York o ex-chefe de Polícia William Bratton, o idealizador do programa Tolerância Zero . De uma forma ou de outra, a Polícia é uma prestadora de servidores. Se fosse uma empresa, os clientes seriam a população, que reclama, devolve produtos adquiridos, troca-os, exige qualidade e satisfação. Se fosse uma empresa, a Polícia analisaria a cada dia seu desempenho, estabeleceria metas a serem atingidas, teria gerentes de produção e seria implacável ao perseguir resultados. Sim, porque empresa que não produz satisfatoriamente é esmagada pela concorrência e não raro fecha as portas – falida ou em concordata.
Se a globalização é irreversível, é hora de fazer as contas. A bem da verdade, não só na Polícia. No Ministério Público, no Poder Judiciário e nos estabelecimentos penais também. O que se faz? O que não se consegue fazer? Por que? Onde estão as falhas? O que precisa ser corrigido? O cliente está satisfeito? A resposta ao último quesito é não. Os demais são perguntas que permanecem no ar.

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