Percival de Souza
Estamos entrando num novo milênio e a passagem para 2001 torna-se singular, porque iniciamos um novo período de 365 dias e também um novo século.
Devemos desejar bons anos, e não apenas um só, já pregou o jesuíta Vieira, acrescentando que as verdadeiras profecias se transformam em História do futuro. A odisséia no novo tempo vai ter início.
A profecia não advinhação, mas análise do presente e a projeção para o futuro é uma das marcas registradas de cientista político. Muitos teólogos ainda não perceberam, mas profeta na linguagem contemporânea é cientista, um grande analista social. No Brasil de 2001, sobre alguns pontos relevantes, podemos pensar, analisar, cotejar e portanto profetizar. Desejar, simplesmente, é insuficiente. É preciso querer fazer.
Os conflitos sociais continuarão latentes e ao longo do ano que está chegando tomaremos conhecimento de movimentos sociais reprimidos. Como sempre, não faltarão tiros, de chumbo ou de borracha, golpes de cassetete, bombas de gás e efeito moral, jatos dágua. Entretanto, não veremos nenhuma vez uma Tropa de Choque entrando numa empresa, fábrica ou indústria cujos donos tenham violado, até com crueldade, as leis trabalhistas.
A repressão mais firme continuará unilateral, muito embora as questões sociais possuam face bilateral. Claro que no meio disso tudo muitos continuarão a confundir reivindicação com destruição e repressão com espancamentos e mortes.
A polícia continuará tendo uma supervisão administrativa exercida por neófites, em sua grande maioria. Achando que ela precisa de um envólucro, de preferência em papel celofane, secretários da Segurança, jejunos de um assunto que deveria ser profissional ao máximo, continuarão a dar os seus palpites, esquecidos de que segurança é dever do Estado, ou seja, o Estado tem que garantí-la. A Justiça, como diria com sarcasmo Millor Fernandes, pode ser cega mas possui um grande olfato. Atrelados no rigor formal e ao sistema processual medieval, os juízes coantinuarão sendo escravos da lei. Justiça, porém, é outra coisa.
Quando se falar dela, usarão um denominador comum para identificar o que se faz no Brasil. Mas, atenção: Justiça no Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina apenas para exemplificar não é a mesma coisa no Mato Grosso, Amazonas, nesse inacreditável Amapá e alguns outros Estados. Do mesmo modo, como Lalau não é o protótipo da magistratura, quando se fala em Judiciário é preciso esclarecer de que Estado estamos falando. Mas isso não mudará no ano novo. No novo Século, talvez.
Os presídios continuarão sendo depósitos humanos porque não se aprenderá rapidamente que cada estabelecimento penal deveria ser uma enfermaria do espírito e o sentenciado precisaria ser mudado por dentro, transformar-se em clichê da reeducação, porque não se reeduca uma maioria que nunca foi educada. Tudo isso que você acaba de ver pode ser resumido no livro de Daniel, Antigo Testamento, onde se vê no sétimo versículo do capítulo 9: A Ti, Senhor, pertence a justiça mas a nós o corar da vergonha. A miséria continuará sendo filha predileta da violência.
Ficar vermelho de vergonha, na passagem do milênio, nos convida a conferir o avanço tecnológico do Século no extertor, os grandes inventos, as grandes descobertas, e o humanismo ainda engatinhando, a ponto da Declaração Universal dos Direitos do Homem ter sido promulgada pela Organização das Nações Unidas somente em 1948. A alma ainda não conseguiu espaço na memória do computador. Na Petrobrás, avermelharam-se com a logomarca, quiseram mudá-la para Petrobrax e depois ficaram mais vermelhos ainda.
O desafio do novo tempo apresenta uma dimensão maior na esperança de evolução da própria humanidade. No Natal, o ator Anthony Hopkins, o grande intérprete do médico psiquiatra Hannibal Lecter no filme O Silêncio dos Inocentes, distribuiu para amigos um livro chamado Toda a nova alegria de cozinhar. No filme, Hopkins interpreta um canibal. No livro, uma dedicatória: bom apetite. Hannibal, o Canibal.
Enquanto os inocentes, excluídos, miseráveis, mal-aventurados e deserdados continuam sendo destruídos, é preciso despertar sentimentos de amor e solidariedade. Senão, conscientemente ou não, o sarcasmo de Lester será o nosso também.





