Somos 169,5 milhões de brasileiros, divulgou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que significa um magro real per capita se considerarmos que Nicolau, o Lalau, desviou 169,5 milhões em nossa moeda com o superfaturamento das obras para a construção do Fórum Trabalhista de São Paulo.
Ainda bem que Natal quer dizer aniversário de Jesus Cristo e não de Papai Noel – cujas origens nos remetem para São Nicolau. Portanto, no verdadeiro espírito natalino, inspirado Naquele que é a Palavra – isto é, o Verbo feito carne, Emanuel, Deus Conosco – a reflexão nesse dia de congraçamento, troca de amigos secretos, harmonia, fraternidade, felicidade, busca, encontro.
Ao longo dos últimos dez anos, nosso País teve a população aumentada em mais de 20 milhões, o que quer dizer, entre outras coisas, que o número traduz duas populações inteiras de Portugal. Todos esses brasileiros vivem mais na área urbana (81,2%). Nove anos atrás, esse percentual era de 75,6%. Nossa expectativa de vida está em 64,6 anos para homens e 72,3 para as mulheres – muito bom, se levarmos em conta que no começo deste século que está terminando essa média não ultrapassava a casa dos 35. Na região de Canudos, onde perambulava Antonio Conselheiro, a média era ainda menor: 30 anos. Por isso, Euclides da Cunha escreveu que o sertanejo é, antes de tudo, um forte.
Os números podem ser traduzidos. Miséria explícita nos centros urbanos, sofrimento no campo, êxodo, a eterna busca da terra prometida pelos mal-aventurados. O Papai Noel da fantasia traz em seu saco presentes que fazem a alegria das crianças, e dos adultos também. Que bom seria se naquele saco houvesse espaço para presentes que atingissem almas e corações, vontades e mentes, para que se extirpasse a desigualdade, a injustiça, a violência, o consumo transformado em novo templo. Como isso é impossível, já que faz parte de uma marca registrada do homem, resta o possível – a transformação, justamente das almas e corações, vontades e mentes, através do aniversariante que transformou a história do ser humano em antes e depois, para que as distorções gritantes sejam corrigidas. Seria muito bom que todos nós pudéssemos perceber a importância do coração como epicentro das vontades e decisões. Porque, como ensinou Vieira, cego que conhece sua cegueira não é de todo cego porque, pelo menos, vê o que falta. Afinal, como ensinou Montesquieu, para fazer grandes coisas não é preciso estar acima dos homens; é preciso estar com eles.
De qualquer modo, um clima mágico envolve as pessoas no Natal. Os solitários costumam sofrer nesta data a consequência de certas ausências. Os presos ficam loucos para escapar das grades malditas que violentam a condição humana, mas representam o poder do Estado em vigiar e punir, como diria Foucalt, aqueles que transgrediram regras de convívio social. Por trás das grades, as pessoas que transformam seus corações em palco da luta entre o bem e o mal. O suave aroma do amor nem sempre consegue suplantar o ódio quando se fala de encarcerados implorando por uma chance – passar o Natal em casa, ver a companheira, o filho, quem sabe deixar um presente. Depois... voltar para o cárcere, se saiu com autorização, ou desaparecer na escuridão, se saiu à revelia das autoridades. O Natal pode ser um dia muito alegre. Ou um dia muito triste.
Do aniversariante deste 25 de dezembro ficaram as lições de amor, solidariedade, respeito e compreensão. Os ensinamentos sobre o maior código de ética que nos chegou, que é o sermão das bem-aventuranças, curto e bom texto resumido nos primeiros doze versículos do quinto capítulo do Evangelho, segundo Mateus. Bem-aventurado quem traduz o divino para o humano.
Precisamos melhorar muito nosso País, mais uma vez radiografado neste censo do IBGE. Falta de políticas públicas empurraram para as aberrações sociais, abrem atalhos para o crime, vicinais para a violência, estradas para a droga, pistas pavimentadas para a delinquência organizada. Estamos ficando reféns de nós mesmos. Prisioneiros do que fazemos e construímos. Para mudar esse círculo vicioso, que simboliza o mal e nunca o bem, só traduzindo os ensinamentos do aniversariante para o cotidiano. E, aí sim, nos desejarmos mutuamente: Feliz Natal!

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