Percival de Souza
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) perdeu o seu diretor-geral, coronel Ariel de Cunto, porque mantinha num dos Departamentos do órgão de informações do Governo Federal, o tenente Carlos Alberto del Menezzi, acusado de ser torturador durante os anos de chumbo, quando oficialmente pertencia ao extinto Serviço Nacional de Informações (SNI).
Durante esse período da guerra revolucionária, combatentes em posições antagônicas enfrentavam-se nas ruas, representando o status quo, de um lado, e a contestação do regime (militar), de outro. Guerra suja também se passa a limpo. Está chegando a hora de, com o necessário equilíbrio e mínimo de distanciamento crítico, colocar nos devidos lugares o que significou esse período de arbítrio institucional em todas as suas dimensões. O ódio produz frutos horrorosos.
Convencionou-se no Brasil, que a anistia tem um lado só. Assim, deve-se esquecer tudo o que um lado fez e não se esquecer jamais do que o outro lado praticou. A lógica tem sido esta. Resta saber se é correto e evidente, para qualquer ser humano, que a tortura é uma coisa abjeta e seus praticantes não podem ficar impunes. É evidente também que um cultor da liberdade não deve aceitar nenhuma espécie de ditadura, embora entre nós se cultive o raciocínio canhestro de que a cubana representaria a vontade das massas e companheiros. Assim é que entre o lado perdedor (lembre-se que a repressão destruiu a luta armada) foram praticados atos que contrastam com políticas de solidariedade humana e melhoria das condições sociais do País em nome de uma revolução, alguns se deram o direito de tirar a vida do semelhante através de critérios arbitrários.
Em São Paulo, o dono de um restaurante foi executado friamente porque militantes suspeitaram que ele tivesse informado o DOI-CODI sobre a presença de quatro jovens acusados pelo Sistema de serem terroristas, almoçando tranquilamente em seu estabelecimento. Revelo em meu livro Autópsia do Medo que o homem era absolutamente inocente, nada teve a ver com o caso. Há muitos outros desvios de comportamento, como a morte e ocultação do cadáver de uma jovem, esposa de um militante que, por sinal, recebeu ordens para deixar o País. Também tivemos casos de justiçamentos de membros de organizações, acusados, sumariamente, de desvios ideológicos. Também não tem sentido despedaçar com explosão o corpo de um jovem sentinela de 18 anos, fazendo serviço militar obrigatório, e nem executar a coronhadas no Vale do Ribeira, um tenente aprisionado, indefeso. Se esses exemplos viessem do outro lado, seriam um escândalo. O ódio cega.
O maniqueísmo que separa o bem do mal é perigoso porque sim e não podem ser irmãos. Se o tenente agora acusado era araponga do SNI e espremeu gente para arrancar confissões, pode-se discutir se tem condições morais para ocupar determinados cargos, lembrando, porém, que tivesse ele cometido qualquer crime capitulado no Código Penal, já teria cumprido a pena há muito tempo. A política é vingadora. Impõe a condenação perpétua, sem defesa, e rejeita qualquer garantia constitucional e muito menos o contraditório, fundamental em Direito. O ódio faz camuflagens.
De minha parte, embora extramente incômodo, quero me posicionar assim, sem vacilações, tergiversações e medo de errar: não quero ver mandando em meu Brasil nem torturador nem araponga de porão e nem sanguinário capaz de matar o leitor e a mim porque não gosta do que pensamos ou fazemos e até mesmo desconfie de alguma atitude que possa resultar na nossa morte.
Na verdade, não gostaria de ver em qualquer esfera de Poder, nenhum representante deste tipo de pensamento que admite a figura do exterminador, o matador, o torturador, o senhor da vida e da morte, o dono das vontades, atos, movimentos e pensamentos. Quero os dois tipos longe e mim e do Governo.
É terrível ter que escrever isto, mas não fica nada bem para um modesto jornalista-escritor falar contra a consciência e habitar a varanda do omisso Pilatos. Para não admitir que Borges tem razão ao escrever que o avançar dos anos pode ser nosso tempo de ventura porque o animal morreu, ou quase morreu restam o homem e a alma. É chegado o tempo de colocarmos tudo (e não só uma parte) na mesa e, aí sim, meditarmos profundamente sobre o período de nossa História contemporânea em que brasileiros combateram brasileiros, odiando-se até as últimas consequências.





