Percival de Souza
O vice-secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU) Pino Arlachi, encontra-se amanhã com o presidente da República, viaja na terça para conhecer in loco algumas situações sobre tráfico de drogas e crime organizado na fronteira e anuncia um encontro, no mês de dezembro, a ser realizado na cidade de Palermo, na Itália. O tema do evento será justamente o crime organizado, agora analisado pela ONU sob a perspectiva de organização da sociedade para enfrentá-lo.
Arlachi é um homem bastante dedicado a esse assunto. Conheci-o no Brasil, durante dois seminários realizados - um em São Paulo, outro no Rio de Janeiro - para debater essas questões cada vez mais preocupantes. Acompanhado de magistrados italianos que lutaram com empenho e coragem contra articulações antimáfia, tive com ele verdadeiras aulas sobre o que se deve fazer e o que se deve evitar para conter os tentáculos deste polvo gigante chamado crime organizado.
O bairro do Jardim Macedônia, na zona sul de São Paulo, viveu ao longo dos últimos dias uma situação aberrante, dentro de um quadro social que poderíamos chamar de anemia, que significa ausência de regras ou normas. Aconteceu que um certo traficante conhecido como Aranha morreu. Outros aracnídeos do crime se organizaram e obrigaram todos os comerciantes do bairro a fechar as portas de seus estabelecimentos, além de interceptarem ônibus para que seus motoristas levassem, sob ameaça de armas de grosso calibre, uma verdadeira multidão da bandidagem que queria ir ao cemitério dar o último adeus para o finado Aranha. Dentro desse quadro de pânico, a polícia apareceu, por algumas horas fez uma demonstração de presença e retirou-se. Os moradores não abriram a boca para a imprensa. Vocês vão embora, nós ficamos - explicaram da maneira mais didática possível. A frase é carregada de lógica. Quem vive no meio da bandidagem é obrigado a cultivar a política da boa vizinhança. Quando o Estado aparece apenas nos anos bissextos, todo cuidado é pouco em termos de sobrevivência na selva de pedra. Lamentavelmente, esta é a mais pura realidade.
Arlachi, da ONU, conversa no Brasil com FHC e faz o convite formal para representação brasileira no encontro de Palermo, onde estarão expoentes neste assunto, trocando experiências e tentando apontar para rumos, caminhos e direções.
O título desta coluna é o mesmo de um livro que estarei lançando na terça-feira em São Paulo (livraria Saraiva, Shopping Morumbi, 19 horas), revelando uma biografia, toda contextualizada, do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos caciques da repressão durante os chamados anos de chumbo. Mas Autópsia do Medo quer dizer também lançar um olhar para a sociedade brasileira de hoje, cada vez mais inconformada com a insensibilidade e incompetência dos governantes para tratar e enfrentar uma questão que é do máximo interesse de todos.
Sim, os bandidos - no real significado da palavra - estão dando as cartas, impondo regras, fazendo investimentos, jogando com a impunidade e perdendo o respeito pelo aparato legal. O medo é um sentimento que vai tomando espaço em corações e mentes, provocando traumas e recomendando, como espécie absurda de bom senso, que simplesmente se evite andar por certos lugares e a obedecer vozes de comando à margem da lei. É como se fazer tudo o que convém a um bom cidadão fosse temerário, sendo necessário respeitar e obedecer aqueles que, a cada dia, rasgam as páginas do Código Penal e pisoteiam tudo e qualquer parâmetro constitucional. Segurança, dever do Estado? Pura letra morta. Salve-se quem puder - isto é, salve-se adotando as suas normas particulares de segurança. É triste, mas...
Nos tempos de Fleury, a Polícia - que o gerou - era arbitrária, truculenta, fazia o que bem entendia. No aparato da repressão militar a mesma coisa, naqueles tempos em que as pessoas mais poderosas do País eram aquelas investidas do poder de prender a quem quisessem e matá-las, se assim entendessem necessário. A democracia não soube ainda oferecer alternativa.
A autópsia, fora do livro de Fleury, nos remete para uma síndrome contemporânea. Pior: já tivemos medo apenas de bandidos perigosos. Agora, sentimos medo, muito medo, diante da incompetência para enfrentá-los, como se estivéssemos diante de uma epidemia que se alastra. Os remédios talvez fiquem cada vez mais amargos. Melhor tomá-los do que esperar por uma inexistente vacina anticrime. Esqueçamos passes de mágica. Peçamos ações.





