Existe a fórmula sexo + violência = novela? Segundo o juiz da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, sim. Daí o magistrado entender que crianças devem ser preservadas dessa equação, obrigando a TV Globo a enfiar a tesoura em Laços de Família e mexendo numa caixa de marimbondos na qual não faltaram argumentos contra a censura e a volta da ditadura e expressões a favor da liberdade de pensamento e das garantias democráticas. O monumental embrulho aguçou debates e denúncias, manifestos e atos públicos.
Tomar uma posição a respeito é incômodo, ainda mais que a Igreja Católica vetou a gravação de cenas para a novela no interior de uma capela, ameaçando interditá-la, inclusive, se determinações eclesiásticas fossem dribladas. É o caso típico: ficar contra ou a favor, defender as crianças, dizer que a vida é assim mesmo e assim por diante.
Pensemos alto, por partes. Em primeiro lugar, pobre Machado de Assis. Isso ainda não foi dito. Acontece que o grande escritor publicou há um século atrás, o livro Dom Casmurro, tendo como personagem narrador um certo Bentinho. Na trama, este Bentinho se casa com Capitu, moça que conhece desde menino. O casal tem um filho, Ezequiel. Machado de Assis insinua, mas não afirma, sugere a hipótese mas não o concreto, e o leitor acaba sendo estimulado a imaginar que Capitu, eventualmente, tenha traído o marido com um amigo dele, que poderia ser o verdadeiro pai de Ezequiel. Um caso literário, não de adultério explícito. Você decide.
Até Laços de família da Vênus Platinada, Capitu - a senhora Maria Capitolina Pádua - foi tema exclusivo para tertúlias literárias. A Capitu de Machado nada tem a ver com a Capitu da novela - esta uma garota de programa, personagem que você pode amar ou odiar, e que mistura o decúbito ventral com necessidades econômicas de sobrevivência. A única coincidência no caso é que de igual modo o juízo de valor é seu. Você decide. Sobre adultério, há narrativas fantásticas no mundo literário - que vão de Otelo, de Shakespeare, a Anna Karenina, de Tolstói, e naturalmente com Madame Bovary, de Flaubert.
Já a nossa Laços de Família é o que o brasileiro chamaria vulgarmente de zona. Se os intelectuais que a defendem fossem constatar que as cenas de ficção podem ser realidade em todas as camadas sociais, chamariam de promiscuidade, e não de arte. Mas este é um juízo estritamente moral - palavra que deriva de mores, e quer dizer costumes.
Se a filha está grávida do ex-namorado da mãe e, pode Machado, Capitu entende que virar-se literalmente é profissão, que fazer? Sodoma e Gomorra também já foram assim. Pode-se argumentar que tudo isso é entretenimento, e não educação - portanto, o papel de educar cabe à família e à escola, e não à TV. Tudo bem, quem não gosta, que vire ou desligue e botão. Mas, como bem argumenta nosso colega Ivan Ângelo, raciocinar assim é como dizer ao consumidor cuja camisa desbotou que não reclame e mude de camisa.
Portanto, fiquemos restritos aos laços noveleiros, mas sem elucubrações delirantes. Transformar o caso em questão de salvaguarda da democracia ou de ameaça fascista é exageradamente demais. Menos, menos, por favor.
Naveguei por estes mares encapelados só para chegar à minha praia. A questão é: cenas novelescas deformam crianças, induzem à libertinagem e à violência? Segundo me consta, há um clamor generalizado defendendo a melhor qualidade de programação na TV. O que me espanta, particularmente, é que considerável parte do lixo cultural é produzido por gente intelectualmente competente, bem formada, profissional, capaz - e muito - de levar cultura e arte à nossa população. Que se faz com lixo? Ou se recicla ou se joga fora. Também é claro que se existem medidas judiciais a respeito, elas deveriam ser aplicadas em relação a crianças e adolescentes abandonados em todos os sentidos, vítimas de abandono, aberrações e promiscuidades. Concentrar tudo isso na telinha, decidindo o que pode ou não pode ser visto, nada tem a ver. Gosto não se discute. Prefiro ficar com Machado de Assis. A propósito: bem que teria sido possível Capitu ser totalmente inocente do ciúme doentio e na verdade Bentinho estar a fim de Sancha, a mulher do amigo Escobar, e não este encontra-se às escondidas com Capitu. Perdoe-me, Manoel Carlos: texto por texto, com telinha ou sem telinha, continuo preferindo o nosso Machado.

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