O general falou: ‘‘o crime está mais organizado do que nós’’. A repercussão foi enorme. Tudo bem, o general é Alberto Cardoso, ministro chefe do Gabinete Institucional, a ex-Casa Militar da Presidência da República. Parece que finalmente caiu a ficha para muita gente, agora preocupada com o que vamos e devemos fazer como sociedade desorganizada.
O escritor Affonso Romano de Sant’Anna quis corrigir o general, mudando a frase para ‘‘a desorganização social e econômica é que organiza o crime’’. Basta de citações, por hoje. Vamos tentar compreender o que disse o general, e por que disse. Ponto de partida: a afirmação é rigorosamente verdadeira.
O crime é mais organizado porque ele planeja e executa usando como parâmetro único a realidade. Não se vê, entre a bandidagem organizada, ninguém que passou para o lado de lá, teorizando sobre origens do policial e distribuição de renda, fatores exógenos e hexógenos e coisas do gênero. O crime organizado é prático, objetivo, pragmático até: estuda as oportunidades, verifica pontos vulneráveis, investe em armamento e veículos, adere à terceirização da globalização e parte para o ataque. É mais organizado do que nós porque cultua a cultura do investimento com cálculo de perdas e danos, ou seja, os riscos de uma ação de envergadura, significando muito dinheiro em caixa, terminar com estágio longo e forçado numa prisão.
Simultaneamente à fala do general, tive uma conversa surrealista com um desembargador aposentado, Renato Talli, ex-corregedor da Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo. Curioso para um jornalista ouvir lamúrias e desabafos não muito tempo depois que, praticamente nas mesmas circunstâncias, o secretário nacional anti-drogas, Walter Maierovitch (que por sinal trabalhava com o general Cardoso) foi convidado a arrumar as malas e deixar o Planalto. Naquele caso, como registrei aqui na coluna, era a vitória do crime organizado setorizado na área de drogas e triunfo paralelo da burocracia do Estado.
Parece que os magistrados estão condenados a se darem mal nas tarefas que lhe são atribuídas no Executivo. Bem que eu disse a eles: dar voto é uma coisa, sentenciar é outra, determinar com prazos é rotineiro e na máquina do Estado é diferente.
Desabafou comigo o ex-corregedor. Momentos de revelações e profundas inquisições. O tal crime organizado, que muitos tratam como se fosse uma abstração, enraizou-se nos presídios de segurança máxima de São Paulo.
Estruturados em organizações, identificadas por nomes e mantidos por estatutos, os membros da caterva já estão fazendo o seguinte: 1) promoção de cursos para grandes assaltos, entre eles bancos e carros fortes, com ensino de manuseio de armas possantes, que entram desmontadas nas prisões. Quer dizer: celas se transformando em salas de aula para o crime; 2) retenção de valores vultuosos, resultados de grandes roubos, para assistência dos militantes, pagamento de advogados e tudo o que for necessário para o fortalecimento do grupo; 3)investimento em jovens estudantes de direito para que tenham, em tempo rigorosamente calculado, defensores firmes e, quem sabe, seus legítimos representantes em instituições do Estado.
Nessas condições, relatou-me o desembargador, surgiu a consequência perversa: quando entram nas prisões, os membros dessas organizações não precisam mais estudar fórmulas para viabilizar uma equivalência ao abre-te sésamo: funcionários corruptos tomam essa iniciativa. Aliás, quem fica sempre com a mão na massa é o baixo escalão da hierarquia funcional: os doutos, os entendidos, os ‘‘preparados’’, são seres que se julgam superiores e consideram qualquer proximidade sinônimo de promiscuidade. A rigor, os burocratas não sabem de nada o que está acontecendo bem diante dos olhos deles. Com tudo isso, o desembargador foi convidado a retirar-se de cena. Ele é o que foi considerado incômodo. Os bandidos continuam no cenário que planejaram, montaram e deixaram fortemente estruturado.
Moral da história: quando se fala em crime organizado, hoje, não se quer mais fazer apenas uma referência retórica. O significado é cada vez mais real, latente, prático, perigoso e envolvente. Assim devem ser traduzidas as palavras do general. Quem tiver ouvidos, ouça.

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