Soldos miseráveis e eis a Polícia Militar de Pernambuco cruzando os braços, em movimento grevista, forçando a presença de tropas do Exército e da Aeronáutica nas ruas, estimulando a deflagração, embora mais fraca, de movimento similar no Paraná, pelo fechamento de unidades de Polícia Civil. Tudo, coincidentemente, à véspera do segundo turno das eleições municipais, que acontecem neste domingo.
No Recife, deprimentes espetáculos: policiais versus policiais, com tiros inclusive, confrontos entre irmãos da mesma farda. Em Curitiba, entidade sindical falou em ‘‘falência’’ institucional. A tudo isso, a população assistiu perplexa. A questão, nesta coluna, será analisada do ponto de vista da sociedade como um todo, e não da corporação policial específica.
Ora, não se vive sem polícia. Pode ser engraçado cantar ‘‘chame o ladrão’’, mas na hora ‘‘H’’, ninguém vai telefonar para o presídio em busca de socorro. Demagogias e piadas à parte, o palavrório constitucional diz, no caput do artigo 144, que a segurança pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, sendo exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio. A Carta Magna está dizendo que nós, cidadãos, temos o direito de não ver qualquer tipo de confusão ser perpetuada e sofrer agressões físicas ou contra aquilo que, com o suor do rosto, conseguimos conquistar. E mais: segurança pública é serviço considerado essencial e, por isso mesmo, não pode parar.
Os policiais ganham mal? Ganham. Merecem aumento de salário? Merecem. Não estamos aqui falando de bandas podres, truculentos, corruptos. Nossa referência é o honesto, cumpridor dos seus deveres. Esse tipo deve ser cada vez maioria, porque se for minoria, sua instituição se torna indefensável. Mas como esse policial de verdade se valoriza aos olhos da população? Prestando bons serviços e não se esquecendo, jamais, que o verdadeiro patrão da polícia é o povo. É ele que paga o salário através de tributos compulsórios, daí a contrapartida prevista em texto constitucional.
Imagine o policial grevista chegando a um hospital e o encontrando fechado. Ou levando o filho à escola e deparando-se com os portões trancados. Certamente, não iria gostar.
Chegamos ao ponto central: nesses tempos de poucas dracmas e muitos dinares, o dinheiro de Judas, quem é o grande prejudicado na greve pernambucana e na similar paranaense? O povo. Exclusivamente o povo. Ou seja: os policiais dizem que estão contra o Governo. Mas sua vítima é o povo. O único e grande atingido.
Greve implica em riscos para se atingir conquistas. Greve não é uma festa, não é um baile. Grevista de arma na cintura e, pior, dando tiros... não fica nada bem. fica péssimo. A era de resolver no grito e na pedrada é das cavernas. A tiros, também. O êxito de uma greve depende muito de sensibilizar a população, ter a sociedade a seu favor, empunhando por tabela a sua causa, a sua bandeira. Como se sente o povo em Pernambuco sem segurança para nada, a ponto do Judiciário cancelar expediente forense e soldadinhos de chumbo das Forças Armadas desfilarem pelas ruas, empunhando fuzis, numa prevenção tecnicamente inútil poque guerra é guerra e policiamento é policiamento?
Tiremos, pois, esse clima de festa que envolve as greves nas corporações policiais. É bem verdade que alguns setores da Polícia Civil precisariam publicar anúncios para informar de suas greves, senão a população não iria perceber. Policiamento é preventivo e ostensivo, tem formato judiciário, deve completar-se e alimentar um sistema amplo de repressão ao crime.
Moral da história: a Polícia ainda não percebeu que seu melhor advogado é o povo. Trate-o bem, faça de tudo para servi-lo da melhor maneira possível e prepare-se para colher os dividendos. A sociedade quer valorizar a Polícia prestadora de bons serviços. A sociedade se irrita e não aceita maus policiais e aqueles que não fazem polícia, na acepção da palavra, preferindo uniformes de líderes sindicais que não conhecem o dia-a-dia (estafante, reconheçamos) da atividade do profissional em defesa da população. Greves que ferem quem se deveria servir e proteger não alcançam objetivos. Deixam feridas, marcas, cicatrizes. Greves possuem preços e custos. Resultados? É hora de avaliar, com inteligência e bom senso. Mas sempre a favor do povo.