Percival de Souza
Co de Colômbia, Bra de Brasil. Cobra. Este o nome da operação na fronteira de 1.644 quilômetros, desencadeada por 180 policiais federais. Portanto, uma ação mini e não mega, como anunciou o Governo Federal. A rigor, a Operação Cobra não passa de uma Operação Minhoca. Cheguei a esta conclusão depois de uma longa conversa, para ele um desabafo, com o ex-secretário Nacional Antidrogas, Walter Maierovitch, que se aposentou na magistratura paulista se para dedicar exclusivamente ao trabalho de prevenção e repressão à drogas. Acabou se atritando com o ex-ministro da Justiça, José Carlos Dias, deixou o cargo, mas mesmo assim continua sendo uma das pessoas que mais conhecem o assunto neste País. Resolvi usar a conversa, exclusiva, na qual me transformei em confidente, para partilhá-la com os leitores da Folha. Neste domingo de escolha de prefeitos e vereadores, (a valorização da administração municipal é cada vez mais necessária para melhorar a qualidade de vida nas cidades), enfiar o bisturi na ferida chamada tráfico e consumo de drogas é importante para todos nós.
Maierovich argumenta que o Plano Colômbia foi imposto pelos Estados Unidos. A Operação Cobra é uma mera decorrência. O problema está mais fora do que dentro da Colômbia, insiste o homem que, na condição de número 1 das ações antidrogas do País, era sempre chamado de juiz, nas reuniões palacianas, pelo presidente FHC. Não se refina pasta-base sem insumos químicos. Na Colômbia, não existe indústria química. O detalhe é forte, até porque os EUA exportam os tais insumos, o que leva o ex-secretário a raciocinar: Bateu-se no acessório, esqueceu-se do principal. O ovo da serpente continua oculto.
O ex-secretário vai pensando como se estivesse fazendo contas. Haveria produção se não houvesse consumo? Evidentemente que não. Os maiores consumidores da cocaína e da heroína colombianas são os norte-americanos. E mais: na Colômbia proliferam armas modernas e potentes, manuseadas por tropas ilegais, paramilitares e forças guerrilheiras. Maierovitch pergunta de novo: A Colômbia não fabrica armas. Como elas chegam lá? O ex-secretário tem autoridade para falar. E para revelar que as pulverizações com herbicidas até aqui só fizeram crescer em 30% as plantações de coca. O juiz também criticou as ações da DEA, a agência antidrogas norte-americana: Eles só se preocupam com a droga que vai para os EUA. O resto que se dane. Falam em cooperação mas o Brasil continua sendo o mesmo corredor de passagem de drogas que era anos atrás. Isso é cooperação? Vista assim, parece que não.
Maierovitch não foi derrotado pelas forças ocultas, como diria o ex-presidente Jânio Quadros. Ele sucumbiu perante forças políticas claras e a hesitação, por vezes tibieza, de um Governo que prefere procrastinar do que assumir posições. Moral do desabafo: a atual operação de fronteira é apenas uma encenação, para não dizer um embuste. E mais: a preocupação com a evasão de membros das Farc, as Forças Revolucionárias da Colômbia (cujo relações-públicas foi preso em Foz do Iguaçu), é risível: em fins do ano passado guerrilheiros e não só da Colômbia estiveram reunidos tranquilamente num seminário surrealista realizado na cidade de Belém, conforme me revelou, exatamente nesses termos, o secretário estadual da Defesa Social do Pará. Não foram molestados por ninguém.
Fim das revelações de um Maierovitch frustrado, amargurado, desapontado, ferido. Se o poder político brasileiro fosse minimamente sério, ele teria que ser convocado imediatamente logo após a publicação dessa coluna para dizer, em caráter oficial, como e por que ainda não temos em nosso País uma efetiva política de prevenção e repressão. Se a Operação Cobra é um equívoco ou mera cortina de fumaça, como diz expressamente o primeiro secretário nacional antidrogas brasileiro, medidas urgentes precisam ser tomadas. Sei perfeitamente que o leitor ficará inquieto e perplexo ao saber disso, pois do mesmo modo reagi ao ser bombardeado com essas confidência e desabafos, que nos remetem para um faz-de-conta absurdo diante de um problema cada vez mais grave. A conversa termina com os olhos de Maierovitch umedecidos. Suas palavras finais são dolorosas: Estou sendo sincero e verdadeiro. A quem possa interessar, aqui fica o registro das confidências.





