Percival de Souza
Essa foi demais: finlandeses dizem que gravaram sons provindo do inferno ao romper os domínio satânicos no fundo da terra. Saiu na Veja, em tom de deboche, na página 37 da edição 1.666.
Ora considerando-se que satanás em hebraico quer dizer adversário, a religião estabelece relação entre criatura e Criador, está mais do que na hora de prestarmos atenção ao que anda acontecendo na exploração daquilo que o ser humano carrega no mais profundo do seu íntimo: a fé. Não quero, aqui, convencer ninguém a professar este ou aquele credo. Mas quero, sim, fixar parâmetros de raciocínio, porque o embuste anda à solta e os verdadeiros religiosos estão ficando em posição cada vez mais incômoda, pelo fato de que na hora de classificá-los a rotulação é quase sempre homogênea, dificultando a separação do joio do trigo.
A nossa Constituição Federal, no capítulo reservado aos direitos e deveres individuais e coletivos, assegura artigo 5º, VI: É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias. Existem, inclusive, em nossa legislação penal, formas que tipificam crimes contra o sentimento religioso.
Ao mesmo tempo, nosso Código Penal, entre outras coisas, prevê o crime de estelionato (artigo 171). Que é encher o próprio bolso através de ardis, mantendo alguém em erro, mediante artifício, ou qualquer outro meio fraudulento.
Quer dizer: estão protegidos os religiosos e suas respectivas religiões. Mas não estão protegidos os vigaristas. No país de fraca educação, existem pessoas frágeis, débeis diante das artimanhas do mundo moderno, inclusive nessa matéria. Teologia é ramo da filosofia. Teologia foi recentemente reconhecida pelo Ministério da Educação e Cultura como matéria regular em nível universitário. Não é, portanto, assunto para palpiteiros, curiosos e espertos além da conta.
Tomar todo o dinheiro de um infeliz ou mal-aventurado, oferecendo-lhe promessas mirabolantes, configura ato de extorsão. No mês passado, um juiz da cidade de Araraquara, no interior de São Paulo, deu provimento à ação impetrada pela mulher de um homem que, perplexa, ouviu-o contar que havia doado todo o dinheiro fruto de uma indenização pós-demissão a um dos vigaristas de plantão que fala sempre terrestremente de coisas divinas. Curioso: chamado a depor, a desqualificada figura negou a prática habitual imposta aos seguidores.
É preciso colocar essa corja em seu devido lugar. Observe: preceito constitucional é uma coisa, ludibriar em nome da fé é outra.
Basta de pregador-empregador. Chega de empresário disfarçado de teólogo. Desconfie de religião que se apresenta como se fosse apenas um show ou um grande negócio. Afasta-se dos planos eternos de vida apresentados como se fossem planos de saúde. Cuidado com pontos de encontro que se parecem com redes fast-food, porque tudo se condiciona a pagar e a ficar resignado. Desconfie depressa daqueles que reduzem a pregação de fé a apenas isto. A Bíblia ensina que somos também convocados a combater o bom combate. Combatamos, pois, os que transformam os sofridos em marionetes que buscam esperança; os que espalham a ignorância para tratar de explorá-la rapidamente.
Esses explorados são literalmente ovelhas conduzida não por pastores, mas por lobos vorazes. Não é mais possível lavar as mãos, apenas, à semelhança de Pilatos, e cometer o pecado de fazer algo pelo ato de não fazer, como pregou padre Vieira. Ou, ainda, e se preferir, pense com Victor Hugo: A compaixão nem sempre é virtude. Quem poupa a vida do lobo, condena à morte as ovelhas.
Os vigaristas em nome da fé estão ficando cada vez mais audaciosos. A elevação ao transcendente não é paga em parcelas abusivas. Não se pode mais nivelar, como se fosse a mesma coisa, a solidariedade humana e o despertar dos valores espirituais com ganância e exploração. A verdade é como os diamantes: é ou não é. A mentira é lapidada com infinita variação, como estamos vendo por aí.





