Percival de Souza
A primavera vai chegar a Praga sem a conotação da invasão pelas tropas de Moscou. Agora, a desunião soviética nem se lembrará da Primavera de Praga, no final dos anos 60, mas da reunião conjunta de cada ano promovida pelo Banco Mundial e o FMI.
Banco e Fundo, juntos, vão atrair a atenção de previstos 40 mil manifestantes, prontos para encher as ruas de Praga de protestos, confrontos e conflitos, mobilizando uma segurança de 11 mil policiais e, se for necessário, intervenções do Exército, na efervescência prevista entre os próximos dias 19 e 27.
Teremos novidades. O FMI, pode acreditar, vai instar os países ricos a serem condescendentes, inclusives nas dívidas, com os países pobres. O Banco Mundial se mostra disposto a oferecer empréstimos mais significativos em condições bem mais amenas. De uma forma ou de outra, os protestos serão muitos contra a chamada globalização.
Você vai ler e ouvir muito sobre esse encontro em Praga, a partir de depois de amanhã. Vamos procurar sintetizar o que podemos esperar disso em matéria de segurança pública. Entre os especialistas na matéria, a expressão preferida é transnacional, pelo fato de que os segmentos do crime organizado avançam e montam suas bases sem considerar a existência de fronteiras e assim, segundo define o juiz Valter Maierovitch, ex-secretário nacional antidrogas, proliferam por capilaridade, comprometendo o tecido social.
Perseguem o mesmo objetivo, ou seja, o controle social e a consequente anulação da cidadania. De acordo com o ex-secretário, as organizações criminosas, conectadas por meio da chamada network desse tipo de crime, criaram o seu Mercado Comum, que movimenta um quarto do dinheiro em circulação no mundo. Citando um livro da jornalista italiana Claire Sterling, Un Mondo di Ladri, o magistrado afirma que as organizações transnacionais deslocam o lucro obtido com atividades ilícitas para fundos escusos de capitais que, reciclados de modo a esconder a origem sempre ilegal, são frequentemente empregados em atividades empresariais consideradas normais.
O encontro de Praga pode ajudar, de forma pelo menos indireta, a se examinar a questão do crime organizado sob a ótica da globalização. A ex-URSS gerou a máfia russa, que hoje coloca em sua vitrine artigos como componentes nucleares e armamentos.
Perceba que em Londrina, por exemplo, foi organizada uma caminhada pela cidade contra o avanço das drogas. As reações diante de uma ação como esta podem ser variadas, pois envolvem o mundo da dependência química, a prevenção, a repressão e o tratamento. Observe que, a par disso tudo, vigora no mundo das drogas uma implacável lei da oferta e da procura. Para o narcotraficante, este é um grande negócio, nada mais. Pode ser doloroso enfocar o assunto também desse modo, mas funciona assim: alguém vende porque alguém compra; existe traficante porque existe dependente; o negócio ilegal prospera porque não se admite a inadimplência, punida sempre com a morte. A propósito, a Escola Nacional de Saúde Pública realizou uma pesquisa dissertação de mestrado da assistente social Zilah Vieira Meirelles em três morros cariocas, constatando que nada menos do que um quarto da garotada de 10 a 19 anos de idade trabalha para o tráfico. De fato, dentre 2.655 entrevistados, verificou-se que 24,3% deles são envolvidos de alguma forma com traficantes. Com um detalhe: 7,5% são empregados fixos dos traficantes, com salário previamente estipulado, e 16,8% são pagos de acordo com uma tarefa executada que pode ser entregar um pacote de droga ou fazer uma mensagem chegar ao destino.
Perceba que estas coisas têm começo, meio e fim. Como diz Maierovitch, quixote afastado do cargo porque incomodava, assim é a transnacionalidade: O mapa-múndi é uma grande cabeça tomada pelas metástases decorrentes de um tumor maligno chamado crime organizado transnacional. E os cancros proliferam pela incredulidade dos que não temem pela perda da cidadania e da paz.
Você vai ouvir gritos e protestos do tipo fora FMI, abaixo o pagamento da dívida externa e coisas do gênero. O buraco, porém, fica bem mais para baixo. É transnacional.





