A Polícia está pedindo socorro, grita, mas nem o eco responde. A solidão do encontro institucional consigo mesma poderia ser um bom momento. A realidade transformou esse instante em hora amarga. A Folha desnudou a realidade com a matéria polícia desequipada – ‘‘segurança à beira do caos’’, cujo conteúdo merece respostas, avaliações e providências.
No caso, ficar à beira do caos é uma contradição. Porque segurança é uma das maiores preocupações das pessoas em todo o Brasil. Porque muitos candidatos às eleições municipais procuram ludibriar o eleitor fazendo promessas justamente na área de segurança, cuja responsabilidade é de Estado. Porque não se pode ficar indiferente diante daquela que é uma das exigências prioritárias da população.
Falta isso, falta aquilo, falta tudo. Também falta motivação, estímulo, reconhecimento. É certo que a bandidagem incrustada assusta e preocupa, como vimos no conluio entre policiais e contrabandistas na fronteira com o Rio Grande do Sul. Como preocupa e assusta, também, a hipótese de traficantes e guerrilheiros que os protegem (e se dizem marxistas...) na Colômbia entrarem em território brasileiro.
É preciso ler a matéria da Folha e ir diretamente às causas e efeitos. Descomplicando em vez de complicar. Há quem diga que, assim como a Casa Militar da Presidência da República passou a ser Gabinete de Segurança Institucional, os adjetivos civil e militar já não servem mais para qualificar o substantivo polícia. Esta é a opinião do coronel Brandino Mello Ribeiro, da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Para ele, o modelo atual está ‘‘engessado’’ pelo artigo 144 da Constituição. Ambas as polícias, analisa, ‘‘constituem partes sistêmicas de um todo indivisível, que precisa de trocas constantes de informações para uma vital retroalimentação’’.
Às vezes é preciso ver tudo isso com o chamado ‘‘olhar de fora’’, isto é, isento, não comprometido, desengajado, despido de preconceitos e corporativismos. A Folha mostrou que o rei está nu. E daí? Daí que, segundo Fernando Pessoa, ‘‘é mister que a desorganização chegue a um estado agudo, para que os mais letárgicos se convençam que têm que agir ou ajudar a agir’’.
Chegamos ao estado agudo mencionado por Pessoa, inteligente e sensível, dono do aludido ‘‘olhar de fora’’. A frase não foi cunhada para a questão da segurança. Mas ajusta-se como uma luva. Pessoa nunca é de se jogar fora.
Se o rei está nu, a Folha – através das colegas Luciana Pombo (Curitiba) e Telma Elorza (Londrina) – desnudou a Polícia. Bem que ela tenta encobrir suas vergonhas, mas – à semelhança de Adão e Eva, no relato do Gênesis – de repente tudo fica muito difícil de permanecer escondido. Nua, a Polícia precisa se cobrir, num primeiro momento, nem que seja com folhas de figueira, como os primeiros habitantes do Éden, e depois pensar no que fazer para enfrentar a situação.
Essa Polícia com uma mão na frente e outra atrás constrange a sociedade, que finalmente começa a perceber que reprimir não é sinônimo de palavrão após os anos de chumbo. Como diz a psicóloga Rosely Sayão, consultora em educação, ‘‘sem repressão não há educação, não há possibilidade de convívio social’’. Explica: ‘‘Educar os filhos já é muito difícil e educar democraticamente é mais difícil ainda. Mas não há democracia sem proibição, sem repressão.’’ Justifica: ‘‘Claro que não se trata dessa repressão truculenta e policial a que estamos, infelizmente, acostumados a associar a palavra. Mas da repressão que susta, que dosa, que modera, que retém, que refreia, que inibe.’’ Rosely disse isso para se referir aos filhos agressivos e pais omissos ou sem saber o que fazer. Como a frase de Pessoa, suas palavras são adequadas às distorções sobre o que a sociedade está entendendo sobre segurança e polícia.
Confessemos: nem os que se consideram bem pensantes estão sendo capazes de oferecer respostas e mudar o que deve ser mudado, começando pela raiz. Na República dos Bacharéis, é preciso parar para pensar. Não dá mais para enganar. Com Polícia nua e bandido bem vestido, fica difícil considerar normal uma vida cheia de sobressaltos no cotidiano. Se viver já está difícil, quando mais sobreviver...

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