Dois tiros, um nas costas e outro na cabeça, e a mulher de 32 anos está morta. O assassino, quase o dobro da idade da mulher, foge. Seria um crime a mais, passional como se veria mais tarde, mas logo a condição de assassino e vítima chamou a atenção e projetou o caso na mídia: os protagonistas são jornalistas.
Costuma-se dizer que jornalista não gosta ou evita falar ou escrever sobre jornalista. Instigado por mim mesmo, vou quebrar o pseudocorporativismo e tratar do caso na coluna de hoje. Antonio Marcos Pimenta Neves, diretor de redação do jornal O Estado de São Paulo até a última quarta-feira, tirou a vida de Sonia Gomide, que havia trabalhado no próprio Estadão, levada por Pimenta, e antes na Gazeta Mercantil, onde conheceu e passou a conviver com seu futuro assassino. A colunista Hildegard Angel, de O Globo, acusou a imprensa paulista e a imprensa em geral de ser combativa e independente na denúncia de fatos políticos e sociais e, agora, estava sendo até machista e decepcionante. Exagerou na dose.
O caso precisa ser colocado em sua devida dimensão. As relações nas redações (tema de debate gravado no N de Notícias, da Globo News, do qual participei na última sexta-feira) não diferem de outras. Aprendi, vivendo em redações e estudando as relações crime-criminosos, que as molas que impulsionam o crime estão apoiadas em fatores negativos de personalidade e da sociedade e que para um crime ser cometido são necessárias, no caso de homicídio, duas pessoas e seu meio social. Quanto aos aspectos éticos da questão, são insofismáveis: não matarás, brada o decálogo mosaico (Êxodo, capítulo 20, versículo 13). É um dos mandamentos.
Na redação, como em qualquer parte, pode haver carreirismo, oportunismo, falta de escrúpulos, perseguição, ambição, sedução à base da hierarquia. No caso de Pimenta e Sandra, os ingredientes são passionais. Aqui, é preciso fincar um alicerce: nada, absolutamente nada, autoriza alguém a tirar a vida do semelhante. Seria algo próprio das sociedades primitivas, embora a prática faça parte da história contemporânea, como admitiria o próprio Pimenta, em entrevista de meses atrás ao Nde Notícias.
Há um desajuste emocional evidente, que levou-o, ainda foragido, a telefonar para o jornal onde trabalhava e reclamar que a cobertura do caso, feita por um concorrente, a Folha de S.Paulo, estava bem melhor.
‘‘Amar é mudar a alma de casa’’, ensinou o poeta Mario Quintana. O crime passional envolve um conceito moralista, inadmissível, que poderíamos chamar de amor propriedade. Ou seja: alguém, que se diz amar, passa a ser considerado como posse. O outro, ou a outra, é visto (a) como objeto exclusivo. Qualquer coisa que perturbe essa relação se transforma em ameaça potencial. O jurista Nelson Hungria já falava no ‘‘despeito do macho preterido’’. Tais conceitos emolduraram por muitos anos julgamentos similares pelo Tribunal do Júri, onde comumente se evocava o princípio da ‘‘legítima defesa da honra’’ para tentar justificar certos crimes.
Matar com esse espírito de posse exige premeditar. O mesmo Hungria ensinava que a premeditação pode simbolizar um índice de perversidade do agente. Outro mestre em direito, Basileu Garcia, escreveu que ‘‘muito raramente se verifica o fato de um homem matar, dominado por uma violenta paixão, sem ter, horas ou dias antes, deliberado praticar o crime’’. Duas décadas atrás, um promotor – Eduardo Gallo – que no júri acusava justamente os matadores, eliminou – com facadas nas costas – a esposa Margot Proença Gallo. Motivo alegado: traição. Tese levantada: defesa da honra. A filha, a futura atriz Maitê Proença, testemunhou no júri a favor do pai e contra a mãe. Terrível.
Voltemos ao princípio: jornalistas são seres humanos e sujeitos a erros, acertos, falhas, atitudes grandiosas, emoções e paixões. Há Pimentas palpitando em muitos corações, dentro e fora das redações, do mesmo modo como existem Sandras. A tragédia do último domingo exibe, para toda a sociedade, uma realidade que se procura esconder ou camuflar e que acaba explodindo quando menos se espera e nos levando a perguntar: como pôde acontecer uma coisas dessas? Pois é, aconteceu. Envolveu jornalistas. Mas os protagonistas poderiam ser de qualquer profissão. Pessoas simples ou poderosas. Humildes ou emergentes. O crime, infelizmente, também explica o ser humano, sempre surpreendente no que é capaz de fazer.

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