Percival de Souza
A Avenida Paulista, cartão de visitas de São Paulo, é considerada como uma espécie de Manhattan da cidade. Grandes edifícios, centro econômico e financeiro, a elegante região dos jardins. Lugar de festejar, comemorar, reivindicar.
Também é uma avenida transformada em acessório obrigatório para uma dezena de hospitais. Na última quinta-feira, ali estavam concentrados em frente ao MASP, o Museu de Arte de São Paulo uma obra arquitetônica monumental, que abriga um acervo cultural maravilhoso grevistas de várias categorias do funcionalismo.
De repente, a pista da Paulista foi bloqueada, nos dois sentidos. Ninguém podia passar. A Polícia precisou intervir. Mandou para lá, como de praxe, a Tropa de Choque. Confronto inevitável, com balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta. Os manifestantes arremessavam latas, pedras e cocos vazios. O saldo: muitos feridos.
No Brasil do achatamento, da defasagem salarial e dos crônicos problemas sociais, cria-se o confronto que talvez nem Kafka pudesse imaginar. Porque aparentemente as coisas são postas assim: de um lado, a justa reivindicação; de outro, os algozes do sistema que indiferentes ao clamor das massas e das ruas, usa de força para manter o que aí está. Kafkaniano porque o grupo armado, encarregado de defender o status quo, também sofre com os baixos salários, a ingratidão da sociedade, a eterna circunstância de levar a fama por situações que não criou.
O que acontece em São Paulo pode acontecer, como tem acontecido, em qualquer parte do País. Os demagogos de plantão querem sempre o confronto, aparecer em fotos ajoelhados diante de policiais como se fossem mártires em holocausto. Ninguém gosta de responder a duas perguntas mas a esta altura, no Brasil-vulcão com erupções esporádicas, é preciso ao menos tentar: 1) é lícito interromper o fluxo de uma via pública, sem importar-se com os estragos feitos na vida dos outros? 2) é lícito armar-se de tudo o que se tiver à mão, agredir, depredar, tudo em nome da democrática reivindicação?
O tucano no poder Mário Covas, o governador de São Paulo, é do PSDB também precisa responder a outras duas questões: 1) nos velhos tempos, dizia-se que resistir às massas na rua era coisa da ditadura. Agora, o que é? No Estado de Direito, as armas precisam ser necessariamente as mesmas do Estado autoritário?
Dos dois lados, não se quer refletir e responder às perguntas. Que, a rigor, colocam as partes em xeque.
O tucanato paulista é emblemático nessa matéria. Quando Covas assumiu, seu primeiro secretário da Segurança, José Afonso da Silva, considerava a Polícia Militar uma maldição a ser extinta. E a Tropa de Choque uma unidade anacrônica, que não deveria jamais ser utilizada sob pena de ferir preceitos constitucionais aliás, a matéria de Silva na Faculdade de Direito da USP, onde lecionava e aposentou-se compulsoriamente aos 70 anos de idade. O segundo secretário, Marcos Petreluzzi, uma espécie de José Afonso rejuvenescido, mantém a Tropa de Choque pronta para intervir. Ele e o governador tiveram que engolir em seco quando deixaram de fazer isso e os motoristas de peruas, transporte clandestino oficializado em São Paulo, transformaram as ruas da cidade em palco de confrontos e violência.
Na contradição pura, os tucanos ficam sem saber o que fazer ou o que dizer quando explode um caso como este da Avenida Paulista. Há pelo menos dez anos não se via na cidade de São Paulo coisa parecida.
Voltemos às perguntas sem respostas. É preciso repeti-las. Elas traduzem lenha na fogueira, o combustível do ódio, a intolerância, a disposição para o confronto, os atritos sem medir consequências. Se ninguém responder às singelas perguntas, de forma coerente, civilizada, será difícil entender o que está acontecendo.
O tucanato de choque não sabe o que fazer. No muro, desagrada a gregos, troianos e espartanos, fariseus e filisteus. Como se viver em sociedade fosse impossível. Afinal, segundo Camões (Lusíadas), a verdade que eu conto nua e crua vale mais que a grandíloqua escritura.





