Percival de Souza
Uma carta para Caminha
Senhor Pero Vaz: porque já são passados 500 anos desde que divulgaste aos portugueses a nova do achamento desta vossa terra, e embora ela já não seja mais vossa, mais de 160 milhões de brasileiros que nela habitam, ainda assim pensamos como escreveu o confrade Marcelo Macca que seria de vosso interesse saber o que descobrimos em nossa recente viagem pelos sítios que há tanto tempo visitaste.
Dizem por aqui, Senhor, que desde que começou a se pensar melhor no significado de Colombo descortinando a América em 1492, que a palavra descobrimento aqui em muito em voga nas comemorações que deveriam limitar-se a celebrações, seria coisa de etnocentrismo, a visão do colonizador sobre os colonizados. Bem sei que não caberia a vós, em sua carta elegantemente escrita (sabia que ela ficou trancada mais de duzentos anos, foi publicada somente em 1817 e é chamada por alguns de nossa certidão de nascimento?), falar em desembarque ou talvez invasão, até porque as navegações de vosso tempo estavam a estabelecer um novo marco na civilização. Um poeta de vossa terra, Fernando Pessoa, a propósito homenageou aqueles que se lançavam ao mar desconhecido com um poema que começa assim: Deus que, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma/ Que o mar unisse, já não separasse/ Sagrou-se, e foste desvendado a espuma. Bem sabemos, Senhor, que quando aqui chegaste vigoravam do outro lado do Atlântico as Ordenações Afonsinas, mas em 1503 teríamos as Ordenações Manuelinas, precursoras das Ordenações Filipinas, que trariam em seu livro V a legislação penal. Não aprendemos ainda, Senhor, a propósito o que melhor fazer em legislação e muito menos para fazer cumpri-las. Falaste em vossa carta que vosso capitão, Cabral, deu à nossa terra o nome de Vera Cruz mas El Rei Manoel achou por bem mudar para Terra de Santa Cruz, porque vera, verdadeira na língua-mãe, somente a cruz de Cristo, o ressurreto, cuja vitória sobre a morte comemoramos hoje neste domingo de Páscoa. Agiu bem, Sua Majestade, e ainda hoje, Senhor, em nossa terra, muitos adultos induzem os infantes a pensar que tudo isso não passa de ovos de chocolate.
Disseste em vossa carta que nossos primeiros habitantes andavam inocentes, expondo suas vergonhas. Nisto, Senhor, estabeleceu-se diferença: hoje por aqui muitos andam culpados, sem vergonha na cara pelos atos praticados, lesivos ao semelhante e ao Estado. Criamos um código de relações entre uns com os outros, ao qual chamamos de leis, mas esta só alcançam os infelizes como os degredados de vosso tempo. Aliás, Senhor, sua preocupação, escrita ao final, de maneira sutil, suplicando por um deles, o vosso genro Jorge Osório, recebeu mercê de sua Alteza.
Mas acontece, Senhor, que nestas terras, hoje Brasil, as capitanias, prosseguem hereditárias e não se pára e pensa que Fernando de Noronha bem poderia ser nomeado patrono da exploração de nossas riquezas. Sou obrigado a concordar que muita coisa não mudou: aqueles dois grumetes que por aqui ficaram viraram símbolo de nossos adolescentes jogadas pelas ruas e sarjetas das vilas. Fico a pensar que aqueles juvenis preferiram fugir da embarcação e ficar no desconhecido é porque as coisas não haveriam de estar muito bem para o lado deles parece que esse negócio de exploração de menor entre nós é mesmo coisa do passado e do presente. Mas o que não poderias imaginar, é que aquela gente que encontraste aqui, e que disseste parecem muito mais nossos amigos que nós seus, foi reduzida de 5 milhões para 300 mil almas. Trouxemos milhões de outros homens, negros, para trabalhar aqui, com tamanha truculência que nosso jovem poeta Castro Alves chegou a pedir, em versos que Colombo fechasse a porta dos mares.
Senhor, por aqui não aprendemos ainda a viver sem matar, sem roubar, sem corromper, sem tergiversar, sem traficar, sem ignorar lições preciosas da ética e, pior, misturamos esse danoso caldo estrutural aos nossos costumes. Nosso País, ainda sonha em ser Nação, tem muito de encoberto, e os 500 anos estão dando margens a controvérsias. Mas isso, Senhor, já são outros quinhentos. Cinco séculos depois, lamentando o vosso desaparecimento meses após escrever a vossa carta, naquele infortúnio de Calicute, registramos nossos cumprimentos enviados deste Paraná, do guarani semelhante ao mar, ex-comarca da antiga vila de Piratininga.





