Começar de novo
Novo secretário de Segurança, cheiro ainda no ar das denúncias mostrando que se confundiu res publica, a coisa pública, com Cosa Nostra, que é prática mafiosa, prepara-se o Paraná para uma nova etapa de organização policial, criando um sistema ‘‘integrado de proteção ao cidadão’’ e paralelo fortalecimento da Corregedoria da Polícia e uma Ouvidoria da Secretaria da Segurança Pública.
Vamos por partes. Como já escrevi e repito, o Paraná tinha plenas condições de dar respostas aos ventos uivantes procedentes da CPI do Narcotráfico, que criaram constrangedores embaraços, particularmente à Polícia Civil, que teve de enfrentar o dissabor de ver o próprio chefe tomando o rumo de lugares incertos e não sabidos. A população tem o direito de imaginar: se a cabeça da Polícia precisa cair fora, que dizer dos demais membros? Portanto, a hora é de restaurar dignidade institucional, projetar eficiência, semear credibilidade e oferecer resultados compatíveis com uma nova prática. O Paraná quer soluções e, à procura delas, pode perfeitamente olhar alguns modelos que gravitam à sua volta e deles tirar alguma experiência que possa ser adaptada com êxito.
A integração entre Polícias, Civil e Militar, é algo que os gaúchos puseram em prática ao longo da semana. Brigada Militar e Polícia Civil saíram juntas, foram vistas juntas, e a sinergia promete. Já se fazia algo assim no Pará, onde até as Academias de Polícia foram unificadas. Esclareça-se que cada polícia tem atribuições constitucionais específicas, e diferenciadas, e por isso a forma de não dispersar recursos tem que ser vista como integração e não unificação. Mas que abre espaço para algo mais funcional no futuro.
A banda podre, tem saliente no Rio de Janeiro, onde o secretário adjunto de Segurança e a demissionária Ouvidoria da Polícia desistiram de um modelo mais moderno (embora apenas falar não deva ser confundido com o verbo fazer), mostra que o poder infiltrado da Cosa Nostra é suficientemente forte para transformar a tal banda numa verdadeira orquestra, da altíssima periculosidade.
Em São Paulo, predominam as teses e não as ações. Se você ouve as autoridades tem a impressão de estar vivendo no Éden. Se sai às ruas, verifica que a realidade é amedrontadora. Bem que as pessoas gostariam de acreditar no lero-lero. Mas não dá. Questão de sobrevivência.
Como bem diz a juíza aposentada Denise Frossard, ‘‘tal como a figura mitológica da Hidra de Lerna (vencida por Hércules), a corrupção cada vez mais apresenta-se em múltiplas faces e figurações, mostrando-se aqui e escondendo-se acolá. Significativo que o aspecto marcante daquela figura ficcional seja, precisamente, a multiplicidade de cabeças’’. No entanto, adverte a juíza que teve a coragem de decretar a prisão de notórios contraventores cariocas. ‘‘o mais interessante é que, para os desavisados, está-se diante de individualidade compartimentadas’’ e que ‘‘a verificação do engano vem a acontecer numa visão macroscópica do fenômeno’’.
Portanto, é preciso ver a floresta toda, e não apenas uma árvore. Estive no curso da semana, com o professor norte-americano George Kelling, um dos pais da teoria da janela quebrada. Segundo essa teoria, ‘‘se você deixar uma janela quebrada, a delinquência entrará na sua casa’’. Aplicada em Nova York, ela adquiriu roupagem concreta, ao se juntar com a prática de políticas públicas, e a criminalidade diminuiu. Portanto, se existe janela quebrada, precisamos de vidraceiros. Na analogia, tudo que é nocivo penetra na janela quebrada, que sugere abandono e vulnerabilidade, estabelecendo inclusive um vínculo direto entre pequenos delitos e crimes mais graves. ‘‘O crime é basicamente problema local’’, disse-me Killing durante uma entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo (que irá ao ar na noite de amanhã) quando frisou que ‘‘não dá para trabalhar sozinho’’ – ou seja, a complexidade dos problemas exige que a organização policial tenha canais diretos de comunicação com a comunidade. ‘‘A polícia precisa saber até o que não pode fazer.’
Muito bumbo e nenhum violino, a banda podre ameaça virar orquestra podre. Precisa-se de bom maestro, instrumentistas capazes e sensíveis. Senão continuaremos a ver a banda passar.

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